Conceição Evaristo: Uma escritora popular brasileira

A escritora concorre à cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras em eleição a ser realizada nesta quinta-feira, 30

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Reprodução internet

Nesta quinta-feira, dia 30 de agosto, a Academia Brasileira de Letras vai eleger o novo ou a nova ocupante da Cadeira número 7 do quadro dos seus membros efetivos, na sucessão do cineasta e acadêmico Nelson Pereira dos Santos, falecido no dia 21 de abril deste ano.  Entre os concorrentes para ocupar esta vaga está Conceição Evaristo, escritora mineira, cuja obra vem despertando um crescente interesse tanto no Brasil como no exterior.

A escritora vem recebendo um apoio popular inédito, que já a coloca na história da Academia Brasileira de Letras.  Até então, nenhum outro(a) candidato(a) à ABL teve uma campanha espontânea com tantas adesões, como também é inédito o uso dos aplicativos sociais (facebookinstagram e twitter) e de petições virtuais em favor da sua candidatura.

Desde eventos como o Prêmio Jabuti, recebido em 2015, pelo livro de contos, Olhos d’água (Pallas); o lançamento do livro Histórias de leves enganos e parecenças (Malê), em 2016; a exposição no Itaú Cultural; a reedição da sua obra completa e a arrebatadora participação na programação principal da Flip (Festa Literária Internacional), em 2017, Conceição Evaristo tem recebido atenção midiática pela literatura que produz, marcada pela afro-brasilidade,  por ser voz essencial e qualificada para denunciar as distorções do sistema literário brasileiro, por questionar as desigualdades sociais no Brasil e por ser uma  porta-voz respeitada ao denunciar a situação de vulnerabilidade  das mulheres negras no que se refere aos direitos humanos.

Como escritora que lida com a formulação de sentido e de imagens, a escritora nos convoca a refletir sobre o imaginário da sociedade brasileira, impregnado de preconceitos em relação à população negra.

Embora sua trajetória atenda aos discursos mais simplistas e ingênuos sobre meritocracia, já que, sendo de origem pobre, conseguiu ser reconhecida como escritora, além de ter se doutorado em Literatura Comparada, pela UFF, em 2011, seu discurso, ao contrário, alerta para que a situação de exceção que pontua sua trajetória se reverta e para que o seu protagonismo se estenda a outras negras escritoras e a outros negros escritores, de modo que os espaços sejam abertos a todos.

A despeito das exceções, o que Evaristo preconiza é que a sua vivência sirva a consolidar uma regra para todos aqueles que, como ela, também estão produzindo e lutando para conquistar o espaço que lhes é de direito.   Desse modo, a escritora nos leva a refletir sobre os mecanismos discursivos existentes cujas propostas insistem em manter as diversas formas de opressão social, o que está representado de modo bastante contundente em tipos e situações variadas na literatura que produz.

Uma literatura que já se insinuava quando, ainda menina, venceu um concurso de redação no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em Belo Horizonte. A escritora seguiu seus estudos no Curso Normal no Instituto de Educação de Minas Gerais, vindo, posteriormente, a   exercer o magistério por muitos anos, no Rio de Janeiro. Graduou-se em Letras pela UFRJ e, na PUC-RIO, fez o mestrado em Literatura brasileira, que concluiu em 1996, com a dissertação “Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade”.

A estreia na Literatura se deu em 1990 com texto publicado nos Cadernos Negros, publicação periódica, que nas últimas quatro décadas lançou diversos escritores negros e escritoras negras.  Seu primeiro romance, Becos da Memória, ficou vinte anos aguardando para ser publicado; o segundo, Ponciá Vicêncio, oito anos.  Insubmissas lágrimas de mulheres esteve fora de catálogo por alguns anos.

Atualmente todos os seus livros estão disponíveis, alguns traduzidos, outros em processo de tradução, e seus textos começam a figurar nos livros didáticos.  Outro destaque é a produção acadêmica sobre a sua obra: teses, dissertações e artigos, além do livro Escrevivências: identidade, gênero e violência na obra de Conceição Evaristo (Editora IDEA, 2016), do Grupo de Pesquisa Letras de Minas.

No momento, Conceição Evaristo prepara dois romances e um livro de contos. Considerando sua trajetória, voltada para a literatura e para a educação, entendemos que, no próximo dia trinta, os acadêmicos da ABL terão uma grande oportunidade de valorizar a literatura que cultuam.

Encontrei-me com Conceição Evaristo no Parque das Ruínas, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, para a gravação de uma longa entrevista, da qual reproduzo aqui alguns trechos.

Como começou o seu envolvimento com a leitura literária?

Meu primeiro envolvimento com a leitura literária foi na escola, o livro didático trazia textos literários, que davam conta do meu desejo, naquele momento.  Lembro, também, que li no primário A bonequinha preta e também O bonequinho doce, ambos de Alaíde Lisboa de Oliveira.   O livro didático trazia muita poesia, eu gostava de decorar as poesias e recitar.  Havia muitos concursos de leitura, havia um momento durante o período de aula, em que todas as classes iam para o galpão da escola e era sorteada quem iria ler. Eu dava a sorte de algumas vezes ser sorteada. Eu ficava treinando a leitura em casa.  Então, foi uma sedução que começou no primário, no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em Belo Horizonte.

E nessa escola havia uma biblioteca?

Sim, tinha biblioteca. Não esqueço o nome da bibliotecária, era Luzia Machado Brandão. Na quarta série, houve um concurso de literatura e a melhor redação foi a minha, o título era “Por que me orgulho de ser brasileira”.  Houve um movimento das professoras para que eu não ganhasse o prêmio, porque eu fui uma aluna não muito disciplinada (risos). Eu questionava, eu brigava, eu queria participar de tudo. Lembro que esta professora de biblioteca contou para minha mãe que não queriam me dar o prêmio; como ela era professora de biblioteca, ela afirmou que, se o prêmio não fosse dado a mim, não teria o prêmio.  Então não teve jeito.  Primeiro, porque foi uma redação muito bonita para uma menina de onze anos.  No dia da formatura eu li essa redação, ganhei de prêmio um missal, escrevi neste livrinho, “lembrança do meu segundo passo para a glória”.  Acho que eu considerava o primeiro passo ter terminado o primário, e o segundo, este prêmio de literatura.

Nesse período, a senhora já sonhava em ser escritora?

Não. Todo o meu período de infância e juventude, não sonhava em ser escritora. Eu sonhava em ser professora. Eu queria ser professora.  Mas sempre escrevi sem saber o que poderia acontecer. Até porque, oriunda de classes populares, nascida em uma favela, vinda de uma família negra, este ideal de ser escritora, não fazia parte do nosso objeto de desejo; eu lia os textos e nem refletia sobre quem estava atrás daquele texto, ou sobre quem escrevia aquelas histórias.  Este conceito de escritor e de escritora era uma coisa muito vaga.  Na minha juventude fui amadurecendo com outras leituras, conhecendo outros escritores e escritoras.  Mas me pensar como escritora aconteceu muito mais tarde, já no Rio de Janeiro.

A senhora faz parte de uma geração de escritores, como Cuti,  Semog, Geni Guimarães, Inaldete Pinheiro, Miriam Alves, Joel Rufino dos Santos, Oliveira Silveira, José Limeira e vários outros que modificaram a percepção sobre a literatura de autoria negra, além de terem uma relação direta com ideias do movimento negro unificado, surgido em 1978.  A que podemos creditar o surgimento dessa geração?

Eu acho que tem muito a ver com o contexto da época, eu acho que as pessoas precisam de canais para direcionar as suas sensibilidades.  A gente tem que pensar também que estávamos em um regime de ditadura. Os grupos vão encontrando táticas de sobrevivência. E a juventude é muito dinâmica.   Essa força iria extravasar de alguma forma; então, ela extravasa nestes grupos negros como uma questão de militância. Estes textos não nascem independentes da militância. Estes textos de autoria negra nascem ligados à afirmação de uma identidade negra, ao próprio questionamento das relações raciais e de um questionamento de uma democracia racial, questionamentos que acabam sendo extravasados na literatura.

Também acho que a gente sofre influências, lembro que nesse período o primeiro texto que ouvi de um escritor africano foi o texto de Agostinho Neto, Poemas da liberdade.  Estes textos circulavam pouco, mas mesmo de maneira alternativa acabavam chegando entre nós.  A luta pelos direitos civis dos negros americanos…  O que nos chegava era muito pouco, mas é um pouco que substancialmente teve influência sobre esta juventude.  Nos anos 70, estas lutas negras vão explodir e a literatura é sempre o meio de dizer as coisas, com muito mais veemência que o discurso político ou o discurso histórico.

Quando a senhora começou a escrever o livro Becos da memória, seu primeiro romance, já havia um projeto de como seria? Como surgiu o desejo de escrever o romance?

Quando eu comecei a escrever Becos da memória, eu tinha ido a Belo Horizonte, e, conversando com a minha mãe, que é uma memorialista, começamos a lembrar de uma pessoa que morou na favela em que morávamos. Essa pessoa adoeceu.  Ela cuidava de outra pessoa e adoeceu.  Então, minha mãe disse: “Vó Rita dormia embolada com ela”.  Embolada porque nem todos tinham cama, então todos dormiam emboladas naquela cama. Fiquei com esta frase na cabeça; voltei para o Rio e comecei o romance por esta frase.  Nada que está em Becos da memória é verdade, mas nada que está em Becos da memória é mentira.  Vários fatos me vieram à memória a partir desta frase da minha mãe, e fui ficcionalizando a partir destes fatos.

E como foi, nesse período, a busca por uma editora para a publicação do livro?

Quando terminei o livro, era o momento em que se comemorava o centenário da Lei Áurea.  O Ministério da Cultura teve uma linha de publicação voltada para a temática negra, mas o livro acabou não sendo publicado por falta de verbas.  Tentei também uma editora feminista.  Mandei para outras, mas a impressão que eu tinha é que o envelope ia e voltava da mesma forma. O livro foi publicado vinte anos depois. O livro ficou guardado por vinte anos.

Nesse tempo em que o Becos da memória não foi publicado, a senhora lançou o romance Ponciá Vicêncio

Comecei a escrever Ponciá Vicêncio no momento em que estava vivendo uma perda, que foi o falecimento do meu marido.  Hoje penso que é por isso que é um livro tão cheio de perdas. O livro ficou guardado por oito anos, e foi um livro, como vários outros, em que eu paguei pela publicação.

Como a senhora vê seu reconhecimento recente? Como é ser vista como uma grande representante de escritores negros e de escritoras negras?

Eu chego na mídia como culminância de uma movimentação desde os anos 90.  Eu acho que tenho que ter um certo cuidado. É um lugar sedutor em que você pode criar uma ilusão de que se é o suprassumo.  Nós vivemos nas relações raciais, nas relações sociais, um sistema em que pinçam alguns elementos, com isso criam-se situações de exceção, e temos que ter muito cuidado para que estas situações de exceção não saiam do coletivo.

Minha preocupação o tempo todo sempre é essa, não perder a perspectiva do coletivo e o coletivo não se afastar de mim, o coletivo continuar me segurando.  Eu só tenho essa firmeza porque eu sei que tem um coletivo atrás de mim, que me sustenta.  Então, pode ser um lugar prazeroso quando se pensa em vaidade pessoal, mas é um lugar perigoso, a gente não pode deixar se encantar com isso e ser essa exceção.

“O que EU TENHO INSISTIDO É QUE LEIAM O TEXTO, PORQUE SENÃO APONTA-SE A GRANDE ESCRITORA NEGRA. E O QUE SE LEU DELA?  PORQUE SE NÃO LEEM FICA SÓ ESSA IMAGEM, QUE É UMA IMAGEM QUE ESCAPOLE AO IMAGINÁRIO, NÃO QUERO QUE AS PESSOAS LEIAM A MINHA IMAGEM, EU QUERO QUE AS PESSOAS LEIAM O MEU TEXTO.” – CONCEIÇÃO EVARISTO

Quais são os riscos dessa visibilidade?

Ao se criar a excepcionalidade, corre-se o risco de ela negar o coletivo.  O imaginário que se constrói sobre as mulheres negras é um imaginário em que a mulher negra não está encaixada no campo da escrita.  Então a minha imagem também chama muita atenção, mulher negra, que não está no padrão global, que tem uma certa idade…  Então, tem que se tomar muito cuidado para que eu não seja vista só por este aspecto e o texto fique por trás.  O que eu tenho insistido é que leiam o texto, porque senão aponta-se a grande escritora negra. E o que se leu dela?  Porque se não leem fica só essa imagem, que é uma imagem que escapole ao imaginário, não quero que as pessoas leiam a minha imagem, eu quero que as pessoas leiam o meu texto.

Em seu último lançamento, Histórias de leves enganos e parecenças (Editora Malê), de 2016, a senhora faz uso do realismo mágico, ou animista. Se pensarmos em uma perspectiva africana, como surgiu a ideia de usar estes elementos na sua literatura?

Escrevi muito contaminada pelas histórias com elementos mágicos que ouvi a vida inteira.  Em Ponciá Vicêncio, eu utilizei um pouco desta fantasia.  Em Histórias de leves enganos e parecenças, eu quis dar valor a estes elementos mágicos, a esta fantasia, ou até mesmo à fé, de que os povos subjugados têm necessidade, o que, por exemplo, em um dado momento a gente poderia chamar de alienação.  Uma história que marcou muito a minha infância é a do negrinho do pastoreio.  Eu quis aproveitar todas aquelas histórias que eu escutei na infância e todas as outras que me foi possível criar para trabalhar com estas ideias, o elemento mágico, o mistério, a fé.  Em determinados momentos, se os grupos subalternizados, os grupos oprimidos não contarem com isso, eles não contam com mais nada.  Então é reconhecer o valor destas histórias até como suporte emocional para as horas de sofrimento.

A senhora acha que a vida lhe deu o retorno da sua luta? Quando a senhora pensa na sua trajetória, isso constitui uma visão apaziguada?

Eu sou grata à vida, acho que a literatura me escolheu. Mas acho também que nada que eu estou ganhando é prêmio.  Aos 71 anos, é que eu estou conseguindo esta visibilidade.  Em termos de organização social, será que se eu não fosse uma mulher negra eu não teria tido este reconhecimento mais cedo?  A vida me escolheu, mas o que eu estou conseguindo poderia ser, deveria ser e merece ser muito mais.  Não apenas para mim, mas como para várias outras escritoras, para vários cidadãos. Eu sou grata, mas eu quero mais.  Eu não estou tomando nada de ninguém.  A sociedade brasileira tem uma dívida com todos nós.  As exceções confirmam as regras.  Que regras são estas da sociedade brasileira que aos 71 anos é que uma mulher negra consegue uma visibilidade dentro da literatura?  Ainda bem que eu tive forças, mas muitas pessoas ficam pelo caminho, porque é preciso um esforço supra-humano.

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Capa de “Histórias de Leves Enganos e Parecenças” de Conceição Evaristo. Imagem: divulgação

Histórias de leves enganos e parecenças – O inusitado na literatura que democratiza o ser humano

“Lá se foi ele, abismo abaixo, abismo abaixo… E quando voltou, ao ser indagado sobre o que vira lá no fundo, com olhar vazio e modo distanciado do mundo, ape­nas respondia: “Desça lá para ver… Desça lá para ver… Desça lá para ver…” (“Grota Funda”, conto  do livro Histórias de leves enganos e parecenças)

Conservadorismo, repressão, injustiça social, religiosidade e ancestralidade são alguns temas presentes no livro de contos Histórias de leves enganos e parecenças, de Conceição Evaristo, lançado em 2016 pela Editora Malê. O livro, já na capa, traz uma enigmática imagem criada por Ainá Evarsito, filha da autora, imagem que a mim sugere o olhar do absurdo sobre nós. Em contos e microcontos, Evaristo apresenta personagens abatidos pelos mais diversos tipos de opressões sociais, como nas narrativas das personagens Dolores Feliciana e Andina.  Dolores representa uma das tantas mães brasileiras em luto pelo assassinato dos seus filhos ̶ “Quando Dolores Feliciana falava dos filhos, os olhos dela vertiam sangue. Ela sempre falava deles com a voz entrecortada de sangue tam­bém.” (“Os guris de Dolores Feliciana”) ̶, o drama de Andina é o de tentar encontrar uma forma para saciar a fome dos seus filhos.  – “Um dia Andina pediu à patroa um dos pães para levar para casa e não recebeu uma resposta positiva. E, a partir desse dia, além de ter de se contentar com um único pedacito que a patroa cortava e lhe dava, tinha de comer diante dela, sem nada levar para casa.” (“O pão sagrado dos filhos”).  O livro sugestiona que, em determinadas situações, a fantasia, a fabulação e os elementos mágicos e religiosos servem como instrumentos possíveis para garantir a esperança e a resistência; como no conto “Nossa Senhora das Luminescências”: “Ela é assim. Carrega, nos modos de ser, uma esperança para o desamparo de todos. O jeito dela é de tal brandura e for­taleza, que qualquer um vivendo o doloroso sentimento de abandono, ao encontrar a Senhora das Luminescências, confor­to experimenta e se sente acolhido no coração do mundo.”

As soluções encontradas pela autora para garantir a resiliência dos seus personagens são as mais inusitadas e este é um sentido que dá força ao livro, pela surpresa e pelo prazer de acompanhar como Conceição Evaristo os alenta, e por ser perceptível que o recurso utilizado pela narradora para os personagens dialoga com a essência do fazer literário, que é a criação. No livro a criação e a inventividade surgem nos personagens para enfrentar situações adversas. E nada mais adverso que um dilúvio, mito que aparece no conto “Sabela”, que encerra o livro. Se “o escritor é como Deus”, e a arte vem instigando (telas, músicas, livros e filmes) que “Deus é uma mulher negra”, a autora faz uso do seu talento e divindade artística para determinar os que deste dilúvio merecem se salvar, reservando para os que se mantêm em “sonos injustos”, um interessante final: “Das águas quero saber não dos mortos, mas, dos vivos, dos mistérios, dos milagres de quem se salvou.”

Leia um trecho do conto Sabela, do livro Histórias de leves enganos e parecenças

Sabela

Quando no céu retumbaram trovões, gritos rasgados da boca do tempo, as vozes do alto foram repetidas desde lá de dentro das entranhas da terra. Os buracos terres­tres, mesmos os bem-bem pequenos, como os minúsculos orifícios por onde penetram as menores formigas, até as crateras de onde jorram os vômitos dos vulcões, todos copiaram os gritos celestes. Todas as inima­gináveis frinchas do chão manifestaram-se com um longo e profundo som. Todas as fendas do solo bradaram violentamente, inclusive a maior, a guardadora das imensas águas, o mar. Repito. Todos os buracos terres­tres devolveram aos céus, em forma de eco, os brados roucos e lancinan­tes que se despendiam das nuvens. Tudo foi um só abalo, um transtorno só. Céu e terra como se tudo fosse uma única matéria em rebuliço. Eu lembro que, naquela tarde, os sons mais baixos provinham das vozes hu­manas em gritaria. Os cães ladravam em uníssono, misturando confusa­mente seus lamentos aos finos e irritadiços miados dos gatos. Os bichos de dois pés emitiam trinados, que de tão estridentes rachavam os bicos. Olhei Sabela, Mamãe tinha a expressão toda úmida. De sua roupa enso­pada a água escorria. Lá fora a chuva nem começara ainda. Era sempre assim. O corpo de minha Mãe dava sinal do tempo. Em épocas de seca, ele também emitia avisos. A saliva ia rareando em sua boca e sua língua ficava fina, finíssima como uma folha desidratada. Durante quase todo o estio ela guardava silêncio, tornava-se meio muda. E quando ensaiava proferir alguma palavra, um hálito quente, incandescente, por mais que ela guardasse distância do interlocutor, se fazia sentir por todos. E naque­le dia, apesar do tempo ser de seca, o corpo de Mamãe anunciava chuva.