Não existe comunicação mais forte que a negra, feminista e periférica

Em período eleitoral e de fakenews, coletivos de comunicação da periferia de São Paulo constroem modelo de comunicação radical e contrária à hegemonia

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Virada da Comunicação, promovida pela Rede Jornalistas das Periferias. Foto: Pedro Borges

*Por Pedro Borges

Entrou no cotidiano brasileiro a noção de que a mídia manipula e de que não é possível acreditar em tudo o que se vê, lê, ou escuta da grande imprensa. A dúvida que fica é, se não é saudável se informar pelos grandes meios hegemônicos, onde devo buscar informações sobre o dia a dia?

John Downing, pesquisador no campo da comunicação, ajuda a responder essa dúvida. Autor da obra e do conceito “Mídia Radical”, Downing com certeza ficaria feliz com a ação dos coletivos de mídia, hoje espalhados pelo Brasil.

Downing aponta que as mídias radicais são grupos que por meio de inúmeras plataformas, informam o público e expressam uma visão diferente dos valores dominantes. Valores hoje presentes na boca de candidatos à Presidência da República, que vociferam colocações racistas, machistas e LGBTfóbicas.

Nessa descrição se encaixam os coletivos e indivíduos que participam da Rede de Jornalistas de Periferia de São Paulo. A Rede não é um coletivo, ou um grupo com funções institucionalizadas. Trata-se de um espaço onde organizações e sujeitos se articulam e se encontram.

Mais do que contrapor valores dominantes, a Rede é formada por corpos não normativos do ponto de vista de raça, classe, gênero e sexualidade. Esse é um fator importante a ser destacado, porque se o Estado brasileiro se notabilizou em construir uma sociedade danosa a mulheres, negros, LGBTs e sujeitos periféricos, a diversidade das mídias radicais e da Rede ultrapassa o perfil de quem compõe esse espaço e os projetos jornalísticos dos coletivos.

John Downing, quando descreve as mídias radicais, enuncia que a forma de comunicar desses grupos é variada, com plataformas de comunicação distintas dos formatos da mídia hegemônica.

Imargem, coletivo constituído por comunicadores da Zona Sul da cidade, das regiões de Parelheiros e Grajaú, se expressa por meio do Infografiti. Isso mesmo: grafiti como informação. Os integrantes desenham os muros das periferias das grandes cidades com mensagens e informações que promovem uma comunicação direta, disruptiva e radical. Outra característica desses coletivos é a maior proximidade, e até organicidade, com seu público leitor. O Periferia em Movimento, canal de comunicação com a perspectiva dos direitos humanos, dialoga com o bairro do Grajaú é um ótimo exemplo.

Considerando o Censo de 2010, que aponta para a existência de 360 mil pessoas no Grajaú, e contabilizarmos que o portal tem 27 mil seguidores no Facebook, chegaremos ao resultado de que o Periferia em Movimento atinge 7,5% do total do local.

Nós, Mulheres da Periferia, mídia feita por mulheres negras e brancas, carrega duas características que chamam atenção. A primeira é a capilaridade. A segunda, é uma organização interna horizontal. Downing dizia que as mídias radicais poderiam ter uma característica leninista, ou seja, mais centralizadas, ou ser mais próximas da autogestão, com um formato mais horizontal. O Nós escolheu a segunda opção, mais difícil e mais democrática.

Historiorama, decidiu fazer jornais impressos e os entregar em terminais de ônibus às 5h da manhã para aquela pessoa que muitas vezes não têm o hábito de se informar pela internet, ou via redes sociais.

No momento de intensos debates sobre as fakenews e a credibilidade no jornalismo, conhecer experiências como essas confirmam a ideia de que é sim possível disseminar notícias com responsabilidade.

Alma Preta é uma mídia negra com uma relação intrínseca ao movimento antirracista. Como a imprensa negra do passado, cobre as atividades da sociedade civil negra e pauta os problemas cotidianos a partir de uma perspectiva de raça, gênero e classe.

É uma das plataformas de comunicação mais próxima à luta antirracista no Brasil, e que tem a maior parte do seu público nas periferias da cidade. A última pesquisa de opinião feita pelo Alma Preta apontou que 70% dos leitores se autodeclaram negros e que uma proporção semelhante reside fora das regiões centrais. É uma maneira especializada de se comunicar com quem mais sofre a violência de Estado: o negro e morador das periferias.

As mídias radicais também rompem com o paradigma clássico da comunicação de receptor e emissor da mensagem e criam outra relação entre quem produz e quem acompanha o conteúdo jornalístico.

Desenrola e Não me Enrola, com um trabalho de educomunicação no Jardim Ângela, Zona Sul, forma centenas de jovens no projeto “Você repórter da Periferia”. Depois do curso, os adolescentes conhecem as técnicas da comunicação e passam a ter um olhar mais apurado para a notícia.

Toda essa novidade de formato por parte dos coletivos é também acompanhada pela vanguarda daquilo que os movimentos sociais mais progressistas pautam: uma intersecção real, não apenas retórica, de raça, gênero, classe e sexualidade na sociedade.

Há um respeito por esses fundamentos quando se decide cobrir um assunto, mesmo quando a pauta corresponde a um grupo identitário diferente do jornalista. Na Rede tem-se homens com maior sensibilidade para cobrir questões de gênero, brancos com maiores subsídios para abordar os debates raciais e héteros com maior cuidado para acompanhar temas delicados à população LGBT, sem utilizar isso como retórica ou lobby. Fazem porque é necessário e a realidade exige, sem deixar de reconhecer que brancos, homens, héteros reproduzem violências e opressões cotidianas. Inclusive os que compõem a Rede.

É assim que as mídias radicais constroem um cenário de alento para a luta política em um momento tão delicado para o país. Hoje no Brasil, caminhamos para a formação de um legislativo conservador, que vai exigir a ação dessas mídias radicais. Jurgen Habermas descreve o conceito da esfera pública como um espaço em que se poderia debater e decidir os rumos de todos de maneira democrática.

A mídia seria então uma extensão dessa esfera pública, onde seria possível ler e conhecer diferentes perspectivas e pontos de vista. Essa possibilidade, todavia, é logo colocada em xeque pelo próprio autor da ideia e por outros teóricos por conta da influência do capital nesse ambiente, que passa a direcionar o debate para a sua reprodução.

Nesse cenário, as mídias radicais reconstroem a possibilidade de uma esfera pública popular, que questiona as ideias hegemônicas com propostas de saídas a partir das pautas dos grupos sociais marginalizados.

Se a ruptura ao modelo hegemônico capitalista ao qual estamos inseridos depende de uma teoria e uma prática política que considere raça, gênero, sexualidade e classe, é igualmente necessária uma comunicação compromissada com esses pilares.

*Pedro Borges é jornalista formado pela UNESP e é co-fundador do portal de mídia negra Alma Preta. Pedro compõe a Rede de Jornalistas de Periferia, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (COJIRA) e a equipe de comunicação da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD).