Qual é a cor do “cor de pele”?

Com pressão dos consumidores, mercados que vão de roupa íntima a material escolar investem em itens com variedade de tons muito além do bege claro

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Marca de lingerie Naja lançou a coleção 'Nude Para Todos'. Divulgação

Papel, desenho, cor e diversidade. Essa foi a aposta da Faber-Castell para lançar a nova linha de lápis de cor “Caras & Cores”, disponível nas caixas de 12 e 24 lápis. Com curadoria do coletivo de artistas negros, o MOOC, a linha conta com seis tons de lápis, que ainda podem ser misturados para aumentar a variedade de tonalidades de pele. Ou seja, um passo necessário para desmistificar a associação do rosa claro ou bege ao chamado “cor de pele”.

Antes do lançamento da Faber-Castell, a marca Koralle, em conjunto com a Uniafro (Programa de Ações Afirmativas para a População Negra), inovou em 2016 ao lançar uma cartela de giz de cera com 12 opções de cores para representar a pele. A caixa chegou a ser usada em escolas públicas do Rio Grande do Sul e é vendida no site da marca para todo o País.

Segundo a psicóloga e militante do movimento negro, Marlene Oliveira, a falta de representação étnica, especialmente na fase infantil, impacta na formação do indivíduo. “O outro não se sente inserido socialmente quando tudo o que está oferecido no mercado não é feito para ele. Há um sentimento de exclusão e não existência dentro dessa sociedade, sendo que a nossa pele negra, por exemplo, é maioria no Brasil”, explica.

A diversidade de tons de pele também ganha espaço na área da beleza, principalmente no setor de maquiagem. Nos EUA, a gama de tonalidades de base, corretivo e pó não é novidade. Com 40 tons de base, a linha Fenty Beauty, assinada pela cantora Rihanna ano passado, tornou-se referência mundial por conta da variedade de nuances da coleção.

Em contrapartida, no Brasil, pessoas negras, indígenas e asiáticas começaram a encontrar produtos compatíveis aos seus tons de pele há pouco tempo. “É bem recente. Há uns cinco anos começou uma discussão sobre a expressão ‘cor da pele’.

O bege tradicional era tido como a única opção. Então, as pessoas começaram a evitar a usar o termo. A partir disso, o mercado começou acordar e entender essas diferenças de tonalidades”, explica a editora de beleza, Paola Deodoro.

Assim como tantas mulheres negras, Paola também já passou por incômodos enquanto era maquiada. “Em um lançamento de uma linha de base, anunciada como diversa, o maquiador veio aplicar o produto em mim, mas o tom mais escuro não chegava nem perto do tom da minha pele”, relembra.

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(Divulgação)

Depois de ter exposto o ocorrido aos representantes da empresa, a editora foi convidada novamente para o lançamento de outra linha da marca, com o dobro de cores e encontrou o seu tom. “Não é uma ou duas vezes que isso acontece, a diferença é como isso é tratado. Nesse caso, houve uma retratação. Fico feliz em acreditar que tem uma coisa funcionando na minha missão, que é botar luz em cima disso”, comenta.

Atualmente, o mercado nacional e as grandes companhias de cosméticos que atuam no Brasil contam com pelo menos uma linha de produtos voltada à diversidade étnica. Com investimento em tecnologia, gradativamente as marcas populares estão produzindo itens com diversidade na cartela de cores, oferecendo preços mais acessíveis aos consumidores em comparação às marcas internacionais de luxo.

O segmento da moda também aderiu a um termo semelhante ao “cor de pele”, o nude. O nome mudou, mas os questionamentos continuaram, já que a expressão era associada a tons claros de bege e marrom. Pensando em uma ressignificação e mudança de posicionamento, a marca de lingerie Naja lançou a coleção “Nude Para Todos”, na qual peças de moda íntima eram disponibilizadas em diversos tons da cor.

A psicóloga Marlene explica a relação entre o posicionamento das empresas e a saúde mental dos consumidores. “O desdobramento de um mercado que pensa nessa questão está diretamente atrelado à autoestima. Quando não encontramos produtos que não são pensados para nós, uma ferida é aberta. Com isso, as pessoas podem criar um complexo preocupante de inferioridade”, sinaliza a especialista.