História do policial negro que se infiltrou na Ku Klux Klan vira livro e filme

Ron Stallworth foi integrante do grupo racista e conta a experiência no livro 'Infiltrado na Klan'

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Cartaz do filme 'Infiltrado na Klan', de Spike Lee Foto: Universal Pictures

Um anúncio de jornal publicado em outubro de 1978 na cidade de Colorado Springs, nos EUA, pedia laconicamente aos interessados na Ku Klux Klan que entrassem em contato para mais informações. Poderia ser apenas um trote ou brincadeira de mau gosto, mas foi o pontapé inicial de uma investigação policial que desmascarou os planos de expansão da organização supremacista branca no interior do estado americano do Colorado.

Essa história verídica é contada no livro Infiltrado na KIan, escrito por Ron Stallworth, o policial negro que conseguiu enganar líderes da KKK, como David Duke, para penetrar nas altas esferas do movimento racista e frustrar vários de seus planos de terrorismo doméstico durante o tempo em que foi oficialmente um integrante da organização. Stallworth, é claro, não ia presencialmente às reuniões da Klan. Ele contava com a ajuda de Chuck, seu parceiro branco, que funcionava como seu rosto enquanto ele conduzia todas as conversas por telefone.

O relato de Stallworth inspirou o filme homônimo do diretor americano Spike Lee, laureado com o Grande Prêmio do Júri na 71.ª edição do Festival de Cannes, em que foi aplaudido. O filme será exibido amanhã, 29, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e estreia no circuito comercial em 22 de novembro.

No livro, o ex-policial — que foi o primeiro detetive negro de sua cidade — conta não apenas o desenrolar de sua investigação, mas faz o leitor vestir sua pele ao recordar momentos constrangedores de racismo cotidiano. Na entrevista de emprego que o fez ganhar a vaga no departamento de polícia, “as perguntas foram se tornando mais incisivas, incluindo o uso do termo pejorativo ‘crioulo’”, conta o autor. “Poderia eu, eles questionaram, dar o exemplo de que um homem negro era tão capacitado a usar o uniforme do Departamento de Polícia de Colocado Springs quanto um homem branco, e que um ‘homem de cor’ merecia andar entre eles como igual?”

A própria polícia que combatia a Ku Klux Klan destilava sua dose de racismo, como quando ele foi obrigado a usar um quepe que não cabia em sua cabeça graças ao penteado afro. “Você tem duas opções: usar esse quepe ou cortar o cabelo”, diz um tenente.

Mesmo os movimentos negros são retratados como extremistas na visão de Stallworth.”Para eles, eu não era um homem ‘negro’, mas sim, um policial que por acaso era negro. Aos olhos deles, eu era um ‘traidor’ da causa”, lembra o autor, que se sentia tratado por eles como “um judas negro que havia escolhido colaborar com o mestre governamental e aplicar a ‘justiça do homem branco’”. E nem mesmo o próprio Stallworth escapa em seu relato: a certa altura, ele dispara: “Todos os homens são um pouco ‘garanhões’ quando o assunto é mulher.” Definitivamente não é das ideias que mais prezam pela igualdade de gênero.

Infiltrado na Klan demonstra como o preconceito se insinua por todas as esferas da sociedade e pode se sobrepor em camadas complexas, sendo praticado até mesmo por minorias. Mas também é um libelo necessário nos tempos de exaltação do discurso de ódio que assolam o mundo.

É este o êxito de Stallworth: mostrar que toda sorte de preconceito permeia a sociedade, não apenas do lado dos vilões.