Na contramão dos países ricos, Uganda abre as portas aos refugiados

Eles recebem terra, direito a trabalhar e liberdade para transitar pelo país

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Uganda abriu as fronteiras e abriga 1,25 milhão de refugiados. Foto: Nichole Sobecki para The New York Times

ARUA, UGANDA – Nestes tempos de crescente xenofobia, o funcionário público Solomon Osakan, que administra uma das maiores concentrações de refugiados de todas as partes do mundo – mais de 400 mil pessoas em seu distrito rural -, tem uma estratégia diferente no noroeste de Uganda.

Os refugiados têm direito a um pouco de terra – o bastante para construir uma casinha,  plantar alguma coisa e, segundo Osakan, serem autossuficientes. Ele conta que os refugiados vivem em acampamentos sem cercas de arame farpado e sem guardas.

“A pessoa é livre, e pode ir e vir à vontade”, disse.

Enquanto muitas nações estão protegendo  suas fronteiras e devolvendo refugiados, Uganda continua recebendo-os. E eles continuam chegando ao país, fugindo de catástrofes nesta parte da África.

Uganda tem 1,25 milhão de refugiados, talvez mais, o que a torna um dos países mais receptivos do mundo, segundo a ONU.

Sua política em relação aos refugiados funciona porque os moradores das áreas rurais do país aceitam os estrangeiros e arcam com uma grande parte do ônus. Os US$ 200 milhões da ajuda humanitária enviados a Uganda este ano pagarão uma grande parte da alimentação e dos cuidados dispensados aos refugiados.

O governo garante que o que gastar com eles beneficiarão também os ugandenses. Então, se o dinheiro dos refugiados resultar em novas escolas, clínicas e poços, os ugandenses mais provavelmente os receberão amistosamente em lugar de se ressentirem com sua presença.

Mas os refugiados precisam de um lugar para viver e de pequenos pedaços de terra para plantar, de modo que as aldeias de todo o norte do país concordaram em dividir a terra comunitária e compartilhá-la com os eles.

“Nossa população era muito escassa, e nossa comunidade concordou em emprestar a terra”, explicou Charles Azamuke, 27, a respeito da decisão de sua aldeia de aceitar os refugiados do Sudão do Sul, dividido pela guerra civil. “Estamos felizes de ter estas pessoas aqui. Nós os chamamos irmãos”.

A cidade de Azamuke, Ofua, é dividida por uma estrada de terra – os ugandenses moram do lado das colinas e os sudaneses do Sul no sopé dos morros. De ambos os lados, os homens só têm palavras de tolerância entre si. Mas as mulheres contaram que surgiram disputas a respeito dos recursos limitados como lenha para o fogo e a prioridade na fila para pegar água no poço.

O presidente Yoweri Museveni, um líder autocrático que está no poder há 32 anos, afirma que a generosidade de Uganda data do período pré-colonial, quando os reinos guerreavam e havia disputas para a sucessão. As facções perdedoras muitas vezes fugiam para uma nova terra.

Ugandenses e refugiados frequentam as mesmas escolas.
Ugandenses e refugiados frequentam as mesmas escolas. Foto: Nichole Sobecki para The New York Times

Museveni certa vez foi aplaudido como um exemplo de nova liderança africana. Ele enfrentou a epidemia de Aid, e convidou de volta os ugandenses de ascendência indiana e paquistanesa que haviam sido expulsos durante o reinado brutal de Idi Amin nos anos 1970. Mas suas forças de segurança derrotaram os adversários políticos. A liberdade de reunião e de expressão foram reduzidas.

No entanto, a abertura de Uganda para com os refugiados torna Museveni uma figura importante para as nações europeias, que estão inquietas com a perspectiva de mais de 1 milhão de refugiados a caminho da Europa.

Outras nações africanas hospedam refugiados, mas pesquisas mostram que os ugandenses estão mais dispostos do que seus vizinhos, como Quênia e Tanzânia, a oferecer terra ou o direito a trabalhar para os refugiados.

Em parte, a razão disso é que os ugandenses também fugiram a certa altura. Fugiram durante o reinado assassino de Amin e no período das represálias após sua derrubada do poder. Nos anos 1990 e 2000, eles fugiram quando Joseph Kony, o líder guerrilheiro, aterrorizava o norte de Uganda.

Muitos se refugiaram no atual Sudão do Sul. Mark Idraku, 57, era adolescente quando fugiu com a mãe para essa área. Eles receberam pouco menos de um hectare de terra para cultivar, o que os ajudou  a se manterem até que voltaram ao seu país, seis anos mais tarde.

Desde então, Idraku emprestou cerca de um hectare a uma refugiada do Sudão do Sul, Queen Chandia, 37. Como a violência destruiu sua terra natal, Chandia, mãe de uma menina e dois meninos, começou a cuidar de crianças órfãs. Agora, são 22 que a chamam de “mamãe”. Chandia disse que a terra fez toda a diferença.

Mas alguns dos refugiados que vieram do Sudão do Sul no ano passado queixaram-se de que receberam menos terra do que os refugiados anteriores.

“Mesmo que você tenha alguma habilidade, como a carpintaria, não tem uma chance”, disse um refugiado, Simon Ludorn, olhando para os operários que construíam uma creche. Segundo ele, a escola será para crianças ugandenses e sudanesas. O capataz Sam Omongo, 50, admitiu que tinha apenas “cerca de três” operários refugiados.

Um deles, Amos Chandiga, 28, um ugandense proprietário de 2,5 hectares de terra, disse que emprestara uma parte a dois refugiados. “Eles me pediram, e eu dei para eles. É uma coisa que vem daqui, do meu coração”, disse batendo no peito.