Eduardo Acaibe, de ator à diretor artístico do TRN

“É preciso mais diretores e roteirista negros que contem nossa própria história, nós por nós mesmos”

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No ar na série Carcereiros, uma produção baseada no livro do médico Dráuzio Varella, que leva o mesmo nome, Eduardo Acaiabe assina novamente a produção artística do Troféu Raça Negra, repetindo a bem-sucedida parceria.

Ator de TV, teatro e cinema, produtor cultural e diretor artístico, Edu, com sua vasta experiência, é responsável por criar o visual e o conceito direto da TV e do cinema para invadir o palco da Sala São Paulo.

Este ano a cerimonia de entrega do Oscar da Comunidade Negra homenageia um dos maiores expoentes do rap nacional, Mano Brown e é de Edu a tarefa de contar sua história.

Fazendo um paralelo entre sua atuação em Carcereiros, onde vivenciou o lado obscuro dos presídios e a direção do premio onde as letras das musicas do homenageado falam sobre a realidade das periferias urbanas, Edu Acaiabe contou sobre sua experiência em uma entrevista exclusiva. Confira:

Afrobrasileiros: Quais as principais similaridades e diferenças entre atuar em uma série que aborda pessoas que vivem à margem da sociedade como os presidiários e a direção de um evento, o TRN, que, em certa medida, também é pensado para negros e negras, que ainda hoje não estão plenamente inclusos na sociedade brasileira?
Edu Acaiabe: Ser artista me permite vivenciar vários papéis e várias formas de experenciar o viver. É como se de alguma forma pudéssemos viver várias vidas em uma só existência. Então ser ator em Carcereiros permite que eu sinta o quanto é difícil e sem possibilidades a vida de quem é condenado no Brasil, permite também observar que é preciso se concentrar muito para entrar em uma personalidade tão diversa da nossa. Já como diretor, tenho mais possibilidade e oportunidade de colocar, junto com o roteirista, na boca do personagem, aquilo que é a maneira que eu percebo o mundo e as coisas que eu acredito. É preciso mais diretores e roteirista negros que contem nossa própria historia, nós por nós mesmos.

Afrobrasileiros: O sistema prisional brasileiro é predominantemente negro, como atuar em Carcereiros sem reforçar estereótipos?
Edu Acaiabe: Tem um texto de Mandela que diz: “Ninguém conhece realmente uma Nação até entrar nas suas prisões” porque um Estado “não deve ser julgado pela maneira como trata os seus cidadãos mais privilegiados, mas pela forma como lida com os mais humildes”. Pelos critérios de Mandela, a avaliação do Brasil não poderia ser pior. Nosso sistema prisional é cruel, desumano e trata como lixo os que habitam os seus cárceres. Uma série como Carcereiros nos permite entrar nesse universo e humanizar essas pessoas que são pais, possuem esposa, mãe, filhos, afetos e desafetos, enfim, são humanos.

Afrobrasileiros: É perceptível que a série humaniza os presidiários ao passo que explica situações que os levaram a tal condição. A Faculdade Zumbi dos Palmares, realizadora do Troféu Raça Negra tem por premissa o mote: sem educação, não há liberdade. Em sua opinião, o acesso a oportunidades é um significativo diferencial entre quem vence e quem é vencido pelo sistema?
Edu Acaiabe: A Educação é o caminho para nós negros e pobres. Digo isso porque nesses anos na direção do Troféu eu tenho visto grandes progressos na nossa comunidade. Segundo os dados do IBGE, em 1997 éramos somente 2% nas universidades, hoje já somos 25 %, em 20 anos crescemos mais do que os últimos 100 anos, após a Abolição da Escravatura. Penso na educação como um caminho para emancipar o homem e a mulher, mas temos que ver que não é qualquer educação, mas uma educação inclusiva que permita igual oportunidade para todos.

Afrobrasileiros: Os Racionais MCs, do qual o grande homenageado do Troféu Raça Negra 2018 liderou durante anos, conquistou muito destaque com a canção “Diário de um detento”. Devido a sua experiência com a temática das prisões em Carcereiros, o que podemos esperar durante a cerimônia de entrega das estatuetas com relação a essa música?
Edu Acaiabe: A Música Diário de um Detento, não sei se vocês sabem, foi escrita por um cara classe média que estava preso no Carandiru, ele contou o que viu e descreveu com detalhes todo o horror e sofrimento daquela situação. Vamos tocar a música Dário de um Detento no Troféu e vamos refletir sobre o Estado autoritário que estamos vivenciando e o encarceramento em massa da população negra no Brasil, na verdade o encarceramento em massa da população da diáspora africana.

Afrobrasileiros: Quais suas próximas atuações e projetos? Pode nos contar?
Edu Acaiabe: Grandes novidades estão por vir em 2019, aguardem!