31.2 C
São Paulo
sexta-feira, dezembro 14, 2018
Erica Malunguinho: ‘Pensar no corpo negro vivo é ato de resistência’

Erica Malunguinho: ‘Pensar no corpo negro vivo é ato de resistência’

A primeira deputada estadual trans eleita em São Paulo quer ocupar os espaços dominados por homens brancos, heterossexuais e cisgêneros--

0
1627
Reprodução Facebook

Sobra, no entanto, coragem. E radicalidade, como ela faz questão de afirmar. “Radical vem de raiz. Então não vejo problema em afirmar que sou radical”, conta. “Precisamos enfrentar com a radicalidade necessária os processos, as estruturas de opressão, para acabar com as violências estruturais”.

Artista, com formação em pedagogia, transformou seu ateliê em um espaço de resistência, a Aparelha Luzia, um quilombo urbano no centro de São Paulo.

Na entrevista a seguir, Malunguinho conta como foi sua decisão de se aventurar na política e sobre a importância de ocupar lugares nos espaços de tomadas de decisão.

CartaCapital: Como foi o início da sua trajetória política?
Erica Malunguinho: Eu tenho retomado isso sempre nesses tempos em que nosso povo anda muito sem memória. É manipuladamente desmemoriado. Então, essa entrada na política diz respeito a um processo muito anterior, de ordem objetiva e subjetiva. Subjetivamente, é dizer que o corpo negro vivo é um corpo político. O fato de todos os corpos ditos dissidentes estarem presentes, sendo fala e presença, diz respeito a uma dimensão da política muito importante. Precisamos enfatizar para humanizar: a política institucional é das pessoas, feitas pelas pessoas e para as pessoas. Pensar no corpo negro vivo é o maior ato de resistência. Isso é um ponto.

Outros pontos mais objetivos dizem respeito a uma longa historicidade das organizações e articulações políticas do povo negro que vem desde muito antes da primeira diáspora escravagista. Mas também diz respeito à diáspora, ao processo de colonização, aos quilombos como forma de organização política, às religiões de matrizes africanas.

Para além da espiritualidade, queremos uma organização política, assim como era a Irmandade de Boa Morte. Pensar no Movimento Negro Unificado, no teatro experimental do negro, em Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Leci Brandão, Elza Soares – pessoas que inclusive estiveram na política institucionalmente. Precisamos retomar esse processo… as baianas do Acarajé, toda essa economia informal das quituteiras. Enfim, pensar em tudo o que diz respeito à articulação política do povo negro. Uma ciosa que sempre falo: o quilombo dos Palmares é nosso único e legítimo governo. E como diria, de novo, Lélia Gonzalez, foi a única república democrática do Brasil.

CC: Você teve contato com esses movimentos ainda jovem?
EM: Parto desse pressuposto todo para pensar porque estou nesse lugar agora. Minha família desde sempre foi ligada a um dos líderes camponeses de Pernambuco, o Francisco Julião, advogado da Liga Camponesa que lutou pela reforma agrária. E isso sempre foi um tema muito recorrente.

Minha mãe é de 1944, deu aula em uma escola que era mantida pela resistência à ditadura, pelo PCB, pelas Ligas. Meu avô e avó sempre estiveram muito ligados ao debate, ainda que não de forma institucionalizada, porque, infelizmente, ainda é um lugar muito demarcado pelos brancos, mas sempre foi um tema muito recorrente. Quando Miguel Arraes foi preso, minha avó passou dias em frente à prisão, antes da ida dele para Fernando de Noronha. Então era uma coisa em ebulição constante.

Fui crescendo e a primeira eleição que Lula disputou, em 1989, foi um acontecimento. Tinha uma caixa de sapatos que era uma urna e eu levava para os amigos votarem – era Lula ou era Collor. Imagina, uma criança que faz isso está laborando o meio social em que vive. Falei para minha mãe que tinha dado certo a eleição – Lula tinha vencido. Sempre foi uma coisa muito recorrente, em todos os outros pleitos também fui muito participante. Nunca fui pela institucionalidade, no sentido da fisiologia partidária. Mas sempre fui muito militante, de comprar broche com meu dinheiro e sair distribuindo.

À medida que fui crescendo, comecei a produzir artisticamente, e essas produções tinham caráter de discussão das relações de gênero e de sexualidade. Era muito forte esse embate. Em são Paulo,  percebo que não é possível dissociar a produção artística da discussão sobre a sociedade. Passei muitos anos na educação, até chegar o momento da Aparelha Luiza,  uma cisão dos lugares onde trabalhei, da sala de aula… e aí vejo que ninguém está disposto a produzir, enfrentar com a radicalidade necessária os processos, as estruturas de opressão, de violências estruturais. E é preciso radicalidade. Foi uma radicalidade à direita que fez Bolsonaro ganhar. Inclusive, a esquerda devia ter se tocado há muito tempo que era necessário radicalidade.

CC: O contexto político dos últimos anos teve algo a ver com a sua decisão de se candidatar?

EM: Vejo a derrubada de Dilma e a eleição de Bolsonaro como sintomas graves da alienação e do apagamento da articulação política do povo preto, que está acontecendo, que sempre aconteceu. É pensar como isso se dá numa esfera que diz respeito à mobilização da resistência, de um processo opressor. E também do momento em que essa resistência sistematiza a opressão e organiza a coletividade que vai pra constitucionalidade.

CC: Com essa guinada ainda mais conservadora, vai ser um trabalho pesado…
EM: Mas sempre foi. Quando não foi? Não estou falando da política institucional, estou falando de todos os lugares. Para nós, pessoas pretas, corpos trans, essa é uma tônica. Se eu estivesse na CartaCapital eu passaria pelo mesmo problema. Claro que eu pensaria obviamente em outro campo, dadas às devidas proporções e lugares discursivos. Esses corpos colocados em dissidências enfrentam a normatividade constantemente. Não é uma novidade, é um retrato fiel. É sobre esse ponto de disputa que estamos falando. É por isso, inclusive, que estamos lá.

Essas identidades todas que os compõem também dizem respeito às identidades que eu componho e diz respeito mais ainda ao projeto de poder em curso, a ideologia em curso. Quando falam sobre as nossas caras lá dentro, não é só a minha cara preta de travesti pernambucana. É corpo-conhecimento.

Nutrido das experiências e das relações que me fizeram inclusive me entender como negra, trans e nordestina nesse mundo. Isso diz respeito a um lugar de negociação. Lugar de entendimento e compressão sobre o mundo e as humanidades que estão nesse corpo que habito. E esse corpo-conhecimento precisa estar nesses lugares, uma vez que as decisões são tomadas nesses lugares e incidem diretamente sobre todos os corpos. E eles são na sua grande maioria são muito próximos aos meus do que aos deles.

CC: Quais os planos para o mandato?
EM: Estamos em um momento muito importante de formação do gabinete. Pensando em como todos esses corpos-conhecimento que compõem essa mandata, porque é muito grande sobre o que ela fala, possam estar lá dentro. Tecendo e elaborando políticas estruturantes e interseccionais que consigam caminhar pelos diversos lugares, setores onde a sociedade se organiza. E obviamente baseada no fundamento racial. Pensando gênero, enfim.

A gente tem pensado em demarcar esse território e expandir esse discurso político, fazer com que entre para a constitucionalidade, fazer as disputas necessárias lá dentro. A gente sabe bem que uma Assembleia Legislativa, ainda mais a estadual, é uma nuvem dentro desses poderes políticos. Vamos pensar como fazer proposições em relação às disputas do orçamento, questionamento das leis vigentes e das que possam vir a serem propostas e aprovadas. Nas comissões também. E tem coisas que eu não posse te dizer [risos]. Não pode dar munição. Mas tem coisas muito boas sendo arquitetadas.

Cabe uma menção. Esse lugar ocupado pelo imaginário construído por Bolsonaro diz respeito ao apagamento de corpos, dos discursos como os meus. Apagamento dos corpos nas situações de decisão, das grandes narrativas.

Esse espaço foi ocupado justamente por esse discurso homofóbico, racista, transfóbico, porque deixaram um vazio nesse lugar. É uma crítica que a esquerda precisa se fazer. Apenas nos veem como destinatários dessas políticas públicas, não como escreventes. Espero que esse seja um momento de tomada de consciência para todos. Como, novamente, diz Lélia Gonzalez, essa história precisa ser contada em primeira pessoa.