Negros, vai ter luta

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Lutar e resistir foi e é a síntese da trajetória do negro na longa historia – marcha de travessia na história brasileira. Lutar para garantir sua vida e existência no regime brutal da escravidão, lutar para alcançar sua liberdade e direito de autonomia e destruir a escravidão. Lutar para sobrepor e superar todas as iniquidades advindas da formalização cínica, ardilosa e trapaceira da libertação.

O negro resistiu a todos os vilipêndios contra sua raça, suas crenças, sua religiosidade, sua cultura sua arte, sua estética, sua dignidade e sua desumanização. Diferentemente do que dizem por aí, e conforme informam as últimas noticiais do front da lava jato de hoje e de sempre, não foram os negros os artífices dessa história, e não foi por sua ação ou omissão que o pais beijou, de novo, a lona.

Pelo contrário, nos quilombos negros e, sobretudo, no quilombo do negro Zumbi, o negro lutou e resistiu juntamente com os brancos e índios e pelos brancos e índios pelo fim da opressão e a agressão da dignidade humana. O negro Luiz Gama lutou com os brancos e pelos negros a favor da liberdade negra e contra a vergonha da escravidão. E, Maria Soldado, mulher negra e valente guerreira descansa com seus despojos no mausoléu dos heróis da revolução de 1932. Ela e mais de dois mil soldados negros, da legião negra, defenderam nas trincheiras e com suas vidas, os ideais, a glória e a honra do non ducor, duco – não sou conduzido, conduzo – da revolução constitucionalista e da bandeira paulista.

É sabido e notório, que o negro construiu nas costas e entregou para a nação, a quinta economia do planeta, a quinta maior extensão geográfica do mundo e a maior nação africana fora da África. Como pode se ver à exaustão nos registros de todos os tempos, seguramente, o negro não é o malandro dessa história e nem o é quilombola de sete arrobas que de forma desrespeitosa, preconceituosa e discriminatória andam afirmando por aí.

O fato é que ao final, a desenfreada intolerância, a altíssima voltagem da discriminação, a banalidade da agressão diária e o desbragado tratamento de cidadão de segunda classe que nos é conferido de forma intencionada e naturalizada na maioria dos espaços públicos e privados, todos os dias, é o combustível e a energia que nos move, nos orienta e nos convoca nesse dia nacional da consciência negra.

Mais uma vez iremos honrar a memória dos nossos ancestrais e lustrar o brilho de suas lutas, realizações e conquistas fantásticas. Desde o imemorial passado de reinos, reis e rainhas, grande invenções e realizações cientificas e tecnológicas do mundo africano do passado, à realidade do mundo atual e global.

Reforçaremos nosso sentido e compromisso de crença no ideal da justiça, prosseguiremos no objetivo inquebrantável da busca do tratamento igualitário e trabalharemos incansavelmente para construir um país justo, democrático, plural e que valorize e dignifique a riqueza da diversidade racial.

A luta de hoje, enfim, é fazer mudar conceitos retrógrados e inaceitáveis, despoluir e desembotar mentes, amansar e colocar amor, solidariedade e fraternidade nos corações. É virar mentalidades e transformar nossa riqueza da diversidade racial na energia criadora para produzir mais, realizar mais, pacificar mais, fazer mais e melhor. Um Brasil para todos, com o respeito à dignidade da pessoa humana acima tudo. Todos juntos e misturados, porque esse é nosso código, esse é o nosso DNA. Como ontem e hoje para esses e todos os demais desafios: Vai ter luta.

José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, Doutor em Educação.