25 anos sem Grande Otelo: relembre a vida e a obra do humorista

'Quando você conhece um humorista, percebe que não temos nada a ver com o que levamos para o palco'

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O ator e humorista Grande Otelo em foto de seu acervo, que passou a ser restaurado a partir de 2004. Foto: Programa Petrobras Cultural / Divulgação

Há 25 anos morria Grande Otelo, um dos maiores atores e comediantes da história do cinema e da TV no Brasil.

“Quando você conhece um humorista, percebe que nós não temos nada a ver com o que levamos para o palco”, dizia o mineiro de Uberlândia – “Não fala Uberabinha para mim que tem briga!”, brincava, em referência ao antigo nome da cidade – que tinha uma história de vida difícil.

Nascido em 18 de outubro de 1915, Grande Otelo já morou na rua, passou por diversas famílias e viveu outros tantos dramas pessoais, como o suicídio de sua esposa, em 1948, logo após matar seu filho, Osmar, enteado de Otelo, quando tinha apenas dois anos de idade, ou quando levou uma facada de sua outra mulher, Joséphine Héléne, em 1978, durante uma crise de ciúmes e bebedeira.

Grande Otelo e Oscarito em cena de 'Barnabé, Tu És Meu' (1951)
Grande Otelo e Oscarito em cena de ‘Barnabé, Tu És Meu’ (1951) Foto: Arquivo / Estadão

Ao todo, Sebastião Bernardes de Souza Prata, como se chamava, casou-se quatro vezes e teve cinco filhos: “quatro homens do casamento oficial e uma mulher de uma aventura.”

Um quarto de século após sua morte, o E+ relembra momentos marcantes da vida e carreira de Grande Otelo. Confira a seguir.

Surge Grande Otelo

Filho de uma mãe alcoólatra e um pai que morreu esfaqueado quando era jovem, Grande Otelo tinha como nome original Sebastião Bernardo da Costa.

“Eu não gostava do ‘Bernardo’ e botei ‘Bernardes’. ‘Da Costa’ eu desprezei, peguei o nome da mamãe, ‘Souza’, e o nome da família que o papai era agregado, ‘Prata'”, explicava, sobre a mudança em seu registro.

Mais tarde, em 1935, começou a ser conhecido publicamente pela alcunha: “A crítica do Rio de Janeiro me batizou como Grande Otelo, por intermédio do Jardel Jércolis [precursor do teatro de revista no Brasil], que me lançou como The Great Othelo“.

Grande Otelo em cena de bastidores com Joaquim Pedro de Andrade, Dina Sfat e Cristina Ache, ao fundo.
Grande Otelo em cena de bastidores com Joaquim Pedro de Andrade, Dina Sfat e Cristina Ache, ao fundo. Foto: Arquivo / Estadão

A origem do apelido remete à sua infância, anos antes. Otelo costumava acompanhar a filha de sua tutora em suas idas à Ópera Lírica Nacional, onde ela estudava canto. Certa vez, o maestro pediu para que também cantasse.

“Ele experimentou minha voz e me viu pretinho, pequenininho… A minha voz era de tenorino – ele achou que era – e eu cheguei a cantar a ópera Tosca [de Giacomo Puccini].”

“Ele achou que, quando eu crescesse, cantaria O Othello [ópera de Giuseppe Verdi baseada no texto de William Shakespeare]. Seria um physique du rôle [perfil físico] autêntico: negro, grande e tal. Mas eu não cresci. Passei a ser o pequeno Otelo”, relembrava, garantindo que, em seu colégio, assinava como Otelo Queirós.

Foto de Grande Otelo em sua infância.
Foto de Grande Otelo em sua infância. Foto: Arquivo / Estadão

A infância de Grande Otelo

Quando jovem, o ator chegou a fugir de casa algumas vezes, passou por diversas famílias e até morou na rua.

“Era a vida de moleque de rua de boa índole: pedia comida e as pessoas me davam comida. Dormia na rua, nos Correios, vendia jornais. Naquele tempo, a facilidade da vida não dava espaço para o moleque pensar em roubar.”

“Ele pedia e recebia. Hoje, ele pede, mas não recebe. Então diz: ‘Vou roubar”, refletia.

“A família que me trouxe de Uberlândia era de teatro e me ensinou a trabalhar no teatro. Era a família da dona Iara Isabel Gonçalves. Quando eles foram para a Itália, eu estava fugido de casa e não fui. Fiquei em São Paulo, e ela deu parte no juizado de menores.”

Grande Otelo ao lado do diretor Humberto Mauro, morto em 1983, nas filmagens de 'A Noiva da Cidade' (1977). 
Grande Otelo ao lado do diretor Humberto Mauro, morto em 1983, nas filmagens de ‘A Noiva da Cidade’ (1977). Foto: Arquivo / Estadão

“O juiz me apanhou na rua, me botou no juizado. Depois, a dona Maria Eugênia de Queirós foi buscar uma menina para ajudar na cozinha, e o juiz de menores apelou para que me levassem, porque eu era inteligente e, se fosse bem protegido, poderia dar em alguma coisa na vida. Ela teve pena da minha situação e levou-me”, contava.

Otelo, que fugia porque gostava de “conhecer gente”, se meteu em uma confusão na casa da família Queirós. Para compar um iôiô, vendeu um livro do jurista Clóvis Bevilacqua, da biblioteca da casa, que “já estava meio carunchado”, achando que ninguém ia perceber.

Grande Otelo caracterizado como personagem.
Grande Otelo caracterizado como personagem. Foto: Arquivo / Estadão

Porém, o Dr. Queirós deu pela falta da obra e questionou-o. “Eu disse que havia vendido porque estava todo carunchado. Então ele se aborreceu e disse que eu arranjasse outro tutor. Eu arranjei o Miguel Max, que era de teatro.”

“Ele [Miguel] não me trouxe para o Rio, levou-me para o interior de São Paulo – e eu queria vir para o Rio. Daí fugi e vim para o Rio com a Companhia de Arte Jardel Jércolis.”

Grande Otelo, ator e humorista

Segundo contava, sua primeira experiência no mundo artístico se deu antes de completar 10 anos de idade, na década de 1920.

“A primeira entrada que eu fiz foi uma beleza, porque eu já era, assim, um palhaço da cidade, com a pouca idade que eu tinha. Então, naquele dia, o circo encheu mais pra ver o Bastiãozinho [como era conhecido na região].”

Grande Otelo ao lado de Jorge Amado 
Grande Otelo ao lado de Jorge Amado Foto: Ana Stewart / Estadão

“Eu tinha uns sete anos. Bastiãozinho, vestido com um vestido comprido e com um travesseiro no bumbum e rebolando de braços com o palhaço. Aí todo mundo riu, todo mundo achou graça”, recordava.

Em 1935, já com o nome de Grande Otelo, fez parte da companhia de arte de Jardel Jércolis, e começou a ganhar cada vez mais projeção no mundo do teatro e do cinema.

Entre 1938 e 1946, fez parte do Cassino da Urca, uma das casas noturnas mais badaladas do País entre 1930 e 1950, época em que o Rio de Janeiro era a capital federal, e que chegou a ser a casa da TV Tupi, anos depois.

Elenco do 'Cassino da Urca'. Na foto, Grande Otelo aparece ao lado de Emilinha Borba.
Elenco do ‘Cassino da Urca’. Na foto, Grande Otelo aparece ao lado de Emilinha Borba. Foto: Arquivo / Estadão

A partir da década de 1940, começou a fazer diversos filmes. Multitalentoso, causava risos nos cinemas brasileiros, mas não era somente engraçado, sendo reconhecido pouco depois como um grande ator, até hoje considerado um dos principais da história do Brasil.

Grande Otelo e Oscarito

Grande Otelo ficou conhecido também por conta da dupla feita com outro grande humorista brasileiro, Oscarito, especialmente nas chanchadas da Atlântida [companhia cinematográfica da época].

Oscarito e Grande Otelo - dupla de comediantes fez sucesso no cinema brasileiro.
Oscarito e Grande Otelo – dupla de comediantes fez sucesso no cinema brasileiro. Foto: Arquivo / Estadão

Entre eles, Céu Azul (1941), Não Adianta Chorar (1945), Aviso aos Navegantes (1950), Barnabé, Tu És Meu (1951) e Matar ou Correr (1954).

O ator, porém, evitava falar sobre os bastidores das produções e sua relação com parceiro do riso: “Eu e o Oscarito nos entendíamos bem no set de filmagens; fora do set, não interessa a ninguém.”

Grande Otelo ao lado de Oscarito, morto em 1970, em cena do filme 'Matar ou Correr' (1954).
Grande Otelo ao lado de Oscarito, morto em 1970, em cena do filme ‘Matar ou Correr’ (1954). Foto: Arquivo / Estadão

 

Grande Otelo e Orson Welles

O encontro entre o humorista e Orson Welles, diretor norte-americano conhecido mundialmente pelo filme Cidadão Kane, aconteceu no Cassino da Urca, em 1942. Na ocasião, Otelo olhou o cineasta de alto a baixo e disse somente “oi”.

“Não fui eu que o conheci, ele que me conheceu. Foi ao Cassino escolher um elenco. No dia seguinte, quando começou a filmagem, ele achou estranho que eu não estivesse no meio dos atores que foram cedidos pela Urca. Procurou-me e fez grande amizade comigo.”

“A minha história com Orson Welles foi muito simples, mas como ele era um americano que me dedicou muita amizade, e eu sou um negro, teve grande repercussão. Ele foi realmente meu amigo, da maneira como os americanos são amigos.”

Grande Otelo ao lado de duas atrizes da Atlântica.
Grande Otelo ao lado de duas atrizes da Atlântica. Foto: Arquivo / Estadão

“Trabalhei com ele, conversamos muito e fui um dos mais bem pagos. Enquanto os outros ganhavam 70 mil cruzeiros, eu ganhava 500 mil”, contou Otelo sobre sua atuação em It’s All True, filme de Welles que nunca chegou a ser finalizado.

A amizade foi abordada à exaustão pela imprensa ao longo dos tempos, especialmente pelos elogios feitos por Welles, que considerou Otelo como genial. “Grande Otelo é o maior ator do Brasil”, dizia.

Grande Otelo, o homem

Apesar do sucesso, Grande Otelo fazia questão de separar o ator de seus personagens, e revelava até uma dose de frustração ao fim de sua vida.

“Sebastião Bernardes de Souza Prata é diferente do Grande Otelo. O Grande Otelo é um ator, e o Sebastião Bernardes de Souza Prata é um cidadão preocupado completamente com todos os problemas do Brasil.”

Grande Otelo.
Grande Otelo. Foto: Cedoc / TV Globo / Divulgação

“Todos nós, querendo ou não, de alguma maneira, nos preocupamos. Por menos que a gente queira. E isso embaratina. Às vezes eu não tenho vontade de trabalhar, fico meio desanimado.”

Em entrevista ao Estado no ano anterior à sua morte, declarou: “Eu me sinto como uma pessoa que não deu certo. Não fez 10 pontos na vida. Foi até cinco, seis pontos.”

Lembrado de que era considerado “patrimônio do Brasil”, fazia questão de destacar: “O ator. Mas o cidadão não é.”

Conhecido por seu passado de boemia, Otelo também refletia sobre o tema, já idoso.

“O que pesa mais foi o tempo que farreei. Foi um tempo perdido. Pesa, mas não me dá remorso, porque, afinal de contas, a vida é isso.”

“Lamento que não tenha cumprido aquilo que um cidadão normalmente cumpre, que é cuidar da família, e tal. Também sinto que, devido à minha profissão, não poderia tratar a família como deveria.”

“Diverti-me bastante, inconsequentemente, às vezes. Hoje não tenho capacidade nenhuma de me divertir, nem de divertir os outros”, refletia, aos 77 anos de idade.

Grande Otelo também lamentava o fato de precisar continuar trabalhando mesmo na terceira idade: “O ser humano tem de entender que, depois dos 70 anos, a gente quer sombra e água fresca.”

As obras de Grande Otelo

“O mais importante filme, pra mim, foi um que uniu o cinema brasileiro de todas as maneiras: Macunaíma. […] Agora, pessoalmente, me agradou muito [Rio,] Zona Norte, de Nélson Pereira dos Santos”, afirmava Grande Otelo.

Nos palcos, Grande Otelo citava O Homem de La Mancha, em que vivia o personagem Sancho Pança e contracenava com Bibi Ferreira e Paulo Autran. Já na televisão, destacava a primeira versão da novela Sinhá Moça.

Grande Otelo em cena da peça 'O Homem de La Mancha', em que interpretou Sancho Pança, ao lado de Bibi Ferreira e Paulo Autran. O espetáculo contava com a direção de Flávio Rangel. 
Grande Otelo em cena da peça ‘O Homem de La Mancha’, em que interpretou Sancho Pança, ao lado de Bibi Ferreira e Paulo Autran. O espetáculo contava com a direção de Flávio Rangel. Foto: Alcir / Estadão

 

Grande Otelo ao lado de Bibi Ferreira e Paulo Autran em divulgação do musical 'O Homem de La Mancha', que inaugurou o Teatro Adolfo Bloch no Rio de Janeiro, em 1972.
Grande Otelo ao lado de Bibi Ferreira e Paulo Autran em divulgação do musical ‘O Homem de La Mancha’, que inaugurou o Teatro Adolfo Bloch no Rio de Janeiro, em 1972. Foto: Arquivo / Estadão

Preconceito no Brasil

Questionado pelo Roda Viva em 1987 se ainda via discriminação no Brasil, foi enfático: “Completamente! A discriminação existe totalmente. Pela sua pergunta, a gente sente que a discriminação existe. Se não existisse, você não teria a necessidade de fazer essa pergunta.”

Em seguida, dava sua ‘receita’ para tentar solucionar o problema: “Só com tempo e, principalmente, educação. Porque a educação é o que faz os homens se aproximarem mais. Havendo a educação, você se aproxima de uma pessoa qualquer, e qualquer pessoa pode se aproximar de você.”

Grande Otelo em cena de 'Macunaíma' (1969)
Grande Otelo em cena de ‘Macunaíma’ (1969) Foto: Arquivo / Estadão

“Eu só não sou discriminado porque me tornei o Grande Otelo, mas o Benedito da Silva é discriminado, por quê? Porque ele tem pouco poder aquisitivo…”, ressaltava.

Zé Carioca

Curiosamente, Grande Otelo quase se tornou dublador de Zé Carioca, papagaio brasileiro criado por Walt Disney que era um legítimo ‘malandro’.

A sugestão, à época, foi feita por Carmen Miranda, que já fazia sucesso em Hollywood.

Otelo, porém, não pôde aceitar o convite por conta de seu contrato com o Cassino da Urca, que o impediria de viajar para realizar as gravações.

Zé Carioca dança com seu amigo, Pato Donald
Zé Carioca dança com seu amigo, Pato Donald Foto: Arquivo / Estadão

Grande Otelo e o carnaval

Nem todos têm conhecimento, mas o nome oficial do Sambódromo da capital paulista é Pólo Cultural e Esportivo Grande Otelo, uma homenagem ao ator.

Em 1986, Grande Otelo foi homenageado pela Escola São Carlos no carnaval carioca. Em agradecimento, escreveu o seguinte samba:

“Quem diria que um dia

Minha pessoa modesta

Merecesse receber uma grande festa

Lá no Estácio, a rapaziada fez meu nome virar batucada

Eu escutei, gostei, senti e até chorei

Vendo a cidade toda dizendo:

– Salve o Tião das Minas Gerais

E que do Rio de Janeiro não sai mais”

A morte de Grande Otelo

Grande Otelo morreu em 26 de novembro de 1993, aos 78 anos de idade, quando teve um acidente cardiovascular brutal por volta das 14h30, ao desembarcar em no aeroporto Charles De Gaulle, em Paris.

Otelo estava junto de sua companheira, Terezinha Brandão Costa. Após cumprimentar os funcionários do voo da Varig e brincar com uma recepcionista da empresa, passava por uma passarela quando sofreu uma queda brusca, causada por uma crise cardíaca.

Grande Otelo em foto de dezembro de 1992.
Grande Otelo em foto de dezembro de 1992. Foto: Renata Jubran / Estadão

Recebeu os primeiros socorros de Flavio Carvalho, diretor da empresa, que vinha logo atrás dele, e também de uma médica brasileira que estava no mesmo voo e realizou massagem cardíaca e respiração boca a boca, sem sucesso.

Na sequência, ainda foi atendido pela Polícia do Ar e das Fronteiras, sendo depois foi transferido para o ambulatório de Roissy, atendido por uma equipe médica bem aparelhada, mas não foi possível salvá-lo. Sua morte foi oficialmente constatada às 16h30.

O ator estava na França para receber uma homenagem no 15º Festival dos Três Continentes na cidade de Nantes. Em 1985, Grande Otelo já havia recebido do país a Medalha das Artes e das Letras durante viagem do então presidente francês François Mitterrand ao Brasil.

No dia anterior, 25 de novembro, havia participado do lançamento de seu livro de poesias, Bom Dia, Manhã, no Festival de Cinema de Brasília.

Em entrevista a um telejornal local, leu um de seus textos: “Se a vida parasse, talvez fosse possível sofrer menos…”

Saudades

Ao longo de sua carreira na TV, no cinema e no teatro, Grande Otelo esteve ao lado de outros grandes nomes como Oscarito, Ronald Golias, Dercy Gonçalves, Ankito, Chico Anysio, entre tantos outros.

Relembre a seguir alguns momentos de Grande Otelo em frente às câmeras:

Contracenando com Chico Anysio na Escolinha do Professor Raimundo:

Mostrando seu talento musical em cena do filme Rio, Zona Norte, com Ângela Maria:

Em esquete humorística com Zacarias, conhecido por ter feito parte do grupo Os Trapalhões:

Em cena musical com Dercy Gonçalves:

*Para realização desta matéria, foram utilizadas entrevistas de Grande Otelo publicadas no jornal O Estado de S. Paulo em 20 outubro de 1985, 10 março de 1992 e 8 de abril de 1997 (esta publicada após sua morte, com base em entrevista realizada em 17 e 18 de novembro de 1992), além de sua entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura, em 15 de junho de 1987.