Cinco décadas depois de chegar ao fim, O Fino da Bossa, programa histórico apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues entre 1965 e 1967, está de volta à telinha. Não será uma compilação das antigas imagens da atração. Nem seria possível, já que os preciosos acervos desse e de outros programas de TV foram destruídos durante incêndios que atingiram a Record nos anos 1960. O Fino da Bossa será recriado agora num especial, que vai ao ar nesta terça, 11, às 23h15, na Record TV, com Pedro Mariano e Luciana Mello, respectivamente filhos de Elis e Jair, fazendo as vezes de anfitriões do programa, tal e qual seus pais. A atração faz parte das comemorações dos 65 anos do canal.

“A ideia não foi reviver, mas, sim, homenagear esse programa de enorme sucesso na década de 60. Nosso intuito é mostrar para o público de hoje a importância desse programa e a importância que teve para a música e a TV brasileira enquanto ele estava no ar”, explica o diretor Allê Gonçalves. “Não tínhamos nenhuma referência estética. Nossa referência foi editorial a partir de depoimentos de quem viveu O Fino da Bossa.”

Por se tratar de um especial, foi preciso focar mais em uma das vertentes do programa original, com o cuidado de não descaracterizar sua essência. “O formato do especial é bem parecido (com o original), principalmente no que diz respeito à parte musical, os pot-pourris, os duetos, as participações. Isso era muito comum no programa. O que provavelmente não tem, pelo número de artistas que se tem para contemplar, é a parte de interação. Tem entrevistas com pessoas da época que fizeram o programa, e alguns depoimentos, mas não vai ter brincadeiras com plateia, as brincadeiras entre os dois cicerones”, diz Pedro Mariano, que divide o palco com Luciana, sua amiga há mais de 20 anos e com quem participou de projetos como Artistas Reunidos.

Entre seus convidados, os dois apresentadores recebem – e cantam juntos com – artistas de diferentes gerações, como Gilberto Gil, Marcos Valle, Elza Soares, Daniel Jobim (neto de Tom), Roberta Sá, Alcione, Fernanda Takai, Paula Fernandes, Jair Oliveira, entre outros. “O Fino da Bossa tinha essa característica de juntar pessoas, juntar artistas, e sem predileção de amigo ou não. Era juntar pessoas boas. Coisa que hoje sinto muita falta, e meu pai sempre gostou disso, de juntar pessoas”, comenta Luciana, que revela estar fazendo um documentário sobre o pai, que morreu em 2014, com previsão de lançamento para o ano que vem.

Como já era esperado, Luciana e Pedro foram tomados pela emoção durante a gravação do especial, ao verem reconstruído ali, no estúdio da emissora, em São Paulo, um pedaço tão marcante da trajetória de seus pais – e do qual tinham poucas referências de imagens. “Meu pai contava que ele tinha muita alegria em fazer O Fino da Bossa, ele tinha a Elis como uma irmã. Para ele, era uma fase muito importante, como o primeiro negro a apresentar um programa de TV. Então, tem toda essa parte muito simbólica”, lembra Luciana, que vai cantar, por exemplo, com o irmão, Jair Oliveira, Disparada, que ficou famosa na voz de Jair Rodrigues.

Fino da Bossa
Anfitriões. Pedro Mariano e Luciana Mello com o veterano Marcos Valle. Foto: Antonio Chahestian/Record TV

A cantora tem experiência como apresentadora, ao contrário de seu companheiro de palco Pedro Mariano, que faz sua estreia na função. Ele conta que sempre se perguntou por que O Fino da Bossa nunca foi resgatado depois de seu término. “Provavelmente, é o programa mais importante da história da música brasileira. Quando você pega esse programa, vê o número de artistas que foi lançado nele e quantos desses artistas se tornaram ícones na história da MPB, dá um grau de importância a esse programa fora de série”, afirma. “Porém, quando você pega o formato do programa, percebe que ele plantou um modelo que acabou sendo seguido por vários programas.”

Depoimentos ao ‘Estado’ sobre o programa:

Gilberto Gil, músico: ‘O Fino da Bossa’ foi um programa inaugural. Teve papel enorme no sentido de divulgar as novas tendências da música popular no Brasil e a música de um modo geral, porque, até aquele momento, a televisão ainda não tinha presença muito forte no campo da música. Então, foi marcante, ficou mesmo na história” 

Elza Soares, cantora: “Achei muito bom rever ‘O Fino da Bossa’, aquilo que a gente sempre fez. Deu saudade. Gostei muito de participar. Recordar é viver. E recordar coisa boa é muito bom”