Nascida nos arredores da cidade de Viçosa, interior de Alagoas, a 86 quilômetros da capital Maceió, Maria Betânia sempre teve uma vida difícil. Na década de 1970, ainda criança, faltou-lhe a oportunidade de estudar.

Enquanto a mãe trabalhava na roça, a menina precisava ficar em casa cuidando dos irmãos mais novos. Seu primeiro contato com a escola se deu somente aos 12 anos de idade, mas durou pouco.

Ela bem que tentou; frequentou regularmente as aulas durante um mês, mas sua professora, não. Sem aprender nada, desistiu.

Assim, a menina que tinha ido sozinha à escola para fazer sua própria matrícula teve que adiar seu sonho de se alfabetizar. Filha de uma lavradora e de um vaqueiro, Maria Betânia da Silva, hoje com 54 anos, mãe de Maria Simone, 32, sua única filha, nunca desistiu.

Em abril deste ano, enquanto trabalhava, assistiu a uma reportagem na televisão sobre uma senhora de 75 anos que voltou a estudar. Era o estímulo que faltava para o início de sua mudança de vida.

Naquele mesmo instante, procurou a escola mais próxima para se matricular, sem êxito. Não satisfeita, dirigiu-se à escola municipal Professor Antídio Vieira, no bairro do Trapiche, que prontamente a acolheu. No dia seguinte, após mais de 40 anos afastada da sala de aula, Betânia voltou a estudar ou, como ela costuma dizer, “começou do zero”.

“Acordo muito cedo e trabalho o dia inteiro, mas à noite eu não tenho preguiça de vir estudar. Aqui somos bem recebidos, a comida é boa. Temos também uma professora maravilhosa que nos motiva a todo momento, nos incentiva a seguir em frente”, diz a estudante que, orgulhosa, faz questão de afirmar que já aprendeu a escrever e soletrar seu nome.

Motivada pelo sonho de menina e com o apoio incondicional de pessoas próximas, Betânia hoje é um dos 7.305 estudantes matriculados em uma das 53 escolas da Rede Municipal de Ensino de Maceió que oferece a Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI).

Ela que, há 16 anos, trabalha como empregada doméstica durante o dia, troca o fogão e as panelas por lápis e cadernos à noite. Seu maior sonho permanece sendo aprender a ler e escrever, assim como seus colegas de turma do primeiro ciclo da EJAI da Antídio Vieira.

Escrever um e-mail, ler um jornal ou mesmo pegar o ônibus correto pode ser algo comum para significativa parcela da população, mas, para algumas pessoas, pode representar uma grande conquista, um ganho de autonomia e de autoestima imensurável.

Em Maceió, o número de idosos nessa modalidade de ensino tem crescido, de acordo com a Coordenadoria Geral de EJAI do município. São pessoas como Maria Betânia que, em algum momento, teve adiado ou interrompido o sonho de concluir os estudos e hoje podem dar continuidade a seus planos ou mesmo partir do início.

O papel do professor

Para a professora Ana Rubia Pinto, o segredo é estimulá-los cotidianamente, além de abraçar, junto com eles, seus sonhos, mas, sobretudo, encarar suas dificuldades como um motivo a mais para se dedicar.

A docente diz que sempre busca dialogar com cada um deles para entender um pouco mais sobre suas vidas, seus sonhos e motivações. Além disso, ela se preocupa até mesmo em ligar para eles quando se atrasa, para que não voltem para casa.

“Faço um esforço para que se sintam à vontade. Minha esperança é poder contribuir para o que eles tanto querem neste primeiro segmento da EJAI: aprender a ler e escrever.”

“Para isso, buscamos trazer para a sala de aula poesia, música e textos que reportem a realidade que eles vivem. Não basta ter conhecimento, o professor precisa ter paciência e amar o que faz”, avalia Ana Rubia, que já foi professora da educação infantil e há cinco anos atua com EJAI na rede de Maceió.

Em 2018, essa realidade ainda é muito presente no Brasil. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2016, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,8 milhões de meninos e meninas estão fora da escola.

Determinação

Entusiasta do impacto que a educação pode ter em sua vida, Betânia, sempre sorridente, garante que está focada nos estudos. Tão forte quanto todas as dificuldades que já passou é seu desejo de aprender. Com a ajuda de “tia” Rubia, como ela e seus colegas carinhosamente costumam brincar, seu sonho de criança está cada vez mais próximo.

“Um vencedor não desiste nunca. Aquele que nasceu para vencer vai até o fim. Se eu não aprender, pelo menos tentei”, comenta a senhora que, em breve, poderá ler sozinha parte de sua história relatada nesta reportagem.

O PNUD em Maceió

Tendo em vista experiências como a de Maria Betânia, a Secretaria Municipal de Educação de Maceió – Semed e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) realizam, no próximo dia 13 de dezembro, o encontro “Reflexões sobre Trabalho e Educação de Jovens, Adultos e Idosos”, no auditório Paulo Freire, na Semed.

A proposta é debater as perspectivas para essa modalidade de ensino em Maceió, sobretudo no que se refere ao cenário educacional e o mundo de trabalho.

Para isso, o projeto Semed/PNUD convidou o professor especialista Timothy Denis Ireland. Já a professora Marinaide Freitas, da Universidade Federal de Alagoas – UFAL, debaterá a Rede Temática: uma Proposta Curricular em Ação na Rede de Ensino de Maceió.

O encontro é direcionado a professores, gestores, coordenadores e estudantes da EJAI na rede, e integra o plano de trabalho do projeto de cooperação técnica com a educação pública do município, iniciado em 2014.

Orientações Curriculares para a Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI)

Em 2017, o projeto Semed/PNUD lançou guia que completa a série de instrumentos pedagógicos da coleção Viva Escola, sintetiza a memória histórica da educação de jovens, adultos e idosos na rede e traz reflexões políticas e epistemológicas, além de ações educativas e de formação de professores, para o enfrentamento do analfabetismo e inserção desse perfil de aluno no cenário político, social, cultural e educacional.

Relatório: Universalizar a Alfabetização em Maceió: Subsídios para a Política Pública

Com supervisão do PNUD, em parceria com a Semed,  o Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG) desenvolveu pesquisa, em 2016, sobre o enfrentamento do analfabetismo na cidade de Maceió.

O resultado foi o relatório “Universalizar a Alfabetização em Maceió: Subsídios para a Política Pública“.