Negros foram grande alvo de campanha russa para influenciar eleições nos EUA em 2016, diz relatório

Relatório revela novos detalhes do retrato que tem emergido nos últimos dois anos da energia e da imaginação do esforço russo para agitar a opinião americana e dividir os EUA

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Manifestante em Ferguson, nos EUA, exibe cartaz com a frase 'Black lives matter' ('As vidas dos negros importam'), lema de um novo movimento social surgido após a morte de Michael Brown Foto: Scott Olson/Getty Images/AFP

WASHINGTON – A campanha de influência russa nas eleições de 2016 pelas redes sociais dedicou um esforço extraordinário para mirar usuários afro-americanos. A estratégia utilizou uma vasta gama de táticas para tentar prejudicar a participação dos eleitores democratas nas eleições, promovendo uma grande atividade de posts no Instagram rivalizando ou excedendo com posts no Facebook. As informações, segundo o New York Times, estão em um relatório produzido para a Comissão de Inteligência do Senado.

O relatório revela novos detalhes do retrato que tem emergido nos últimos dois anos da energia e da imaginação do esforço russo para agitar a opinião americana e dividir o país que, segundo os autores do estudo, continuam até hoje.

“Operações de interferência ativas e atuais continuam ainda em várias plataformas”, afirma o relatório, produzido pela New Knowledge, uma companhia de cibersegurança instalada em Austin, Texas, em parceria com pesquisadores da Universidade Columbia e a Canfield Research LLC. Umas das campanhas russas ainda em atividade, por exemplo, tenta influenciar a opinião na Síria, promovendo Bashar Assad, presidente sírio e aliado russo no conflito brutal do país.

O levantamento é um dos relatórios encomendados por senadores dos dois partidos da comissão. Eles se apoiam amplamente em dados sobre a operação russa fornecidos ao Senado pelo Facebook, Twitter e outras companhias que tiveram suas plataformas utilizadas pela campanha russa. O segundo levantamento foi feito pelo Computational Propaganda Project da University de Oxford e divulgado no domingo pelo Washington Post.

A influência russa na campanha de 2016 foi comandada pela companhia Internet Research Agency (IRA), de São Petersburgo, de propriedade de Yevgeny V. Prigozhin, um aliado próximo do presidente russo, Vladimir Putin. Prigozhin e dezenas de funcionários da companhia foram indiciados em fevereiro como parte de uma investigação sobre o tema do promotor especial Robert S. Mueller.

Os dois relatórios destacam que a empresa criou perfis nas redes sociais com nomes falsos em praticamente todas as plataformas online disponíveis. O objetivo maior era apoiar Donald Trump, primeiro contra seus rivais republicanos na corrida, depois nas eleições gerais, e até hoje, desde que ele tomou posse.

Criando perfis falsos como se fossem de americanos, a empresa espalhou mensagens não apenas via Facebook, Instagram e Twitter, que chamaram mais atenção, mas também em sites como YouTube, Reddit, Tumblr, Pinterest, Vine e Google+, entre outras plataformas criadas por companhias americanas.

Satã

Os pesquisadores descobriram vários exemplos de operadores russos construindo uma audiência com um tema e mudando em seguida para outro, geralmente mais provocativo, com um conjunto de mensagens. Por exemplo, uma conta no Instagram chamada @army_of_jesus_ teve como primeiro post, em janeiro de 2015, imagens do Muppet Show, então trocou suas postagens para os Simpsons e, no início de 2016, começou a focar em mensagens sobre Jesus. Vários memes na internet associaram Jesus com a campanha de Trump e o satã com a candidata democrata, Hillary Clinton.

A companhia russa foi objeto de uma audiência no Senado no ano passado e tem sido amplamente examinada por especialistas das universidades. Os novos relatórios confirmam suspeitas anteriores de que a campanha russa foi projetada para atacar Hillary, enaltecer Trump e exacerbar as divisões já existentes na sociedade americana.

Mas pesquisadores dispensaram atenção especial ao foco que os russos deram aos cidadãos afro-americanos, o que fica evidente a qualquer um que examine a coleção de memes e mensagens.

“Os maiores esforços da IRA no Facebook e no Instagram miram especificamente os americanos de comunidades negras e parece ter tido como foco desenvolver uma audiência de negros e recrutar esses usuários como militantes ativos”, diz o relatório.

Usando contas no G-mail com nomes americanos, os russos recrutaram e algumas vezes pagaram americanos de todas as raças para atuar como ativistas e espalhar conteúdo, mas há uma busca desproporcional por afro-americanos, segundo o relatório.

Malcolm X

O levantamento mostra que enquanto um grupo étnico ou religioso distinto era o foco de uma ou duas páginas no Facebook ou Instagram, a comunidade negra era extensivamente alvo de dezenas delas. Em alguns casos, os anúncios no Facebook foram direcionados a usuários que mostraram interesse em tópicos específicos como a história negra, o Partido dos Panteras Negras e Malcolm X. A conta mais popular dessa campanha foi o @blackstagram, com 303.663.

A companhia russa também criou dezenas de sites com suposta origem afro-americana, com nomes como  blackmattersus.com, blacktivist.info, blacktolive.org and blacksoul.us. No YouTube, a maior parte de compartilhamento das contas falsas russas incluiam conteúdo do movimento Black Lives Matter e da brutalidade da polícia, com canais como “Don’t Shoot” e “BlackToLive”.

O relatório não procura explicar o grande foco nos afro-americanos. Mas a tática da empresa russa repete o trabalho de propaganda soviética de décadas atrás que destacava com frequência o racismo e os conflitos raciais nos EUA, assim como as operações de influência russa em outros países que tentava inflamar conflitos étnicos.

Uma dos autores do relatório e diretora de pesquisa do New Knowledge, Renee DiResta, disse que a IRA inflou queixas e conflitos pré-existes onde foi possível. O movimento Black Lives Matter esteve no centro das atenções nos EUA durante as eleições, quando a operação russa aproveitou-se dela, acrescentando mais material da campanha nas redes quando surgiu uma reação pró-polícia nos EUA. “Tensões raciais muito reais e sentimento de alienação existem nos EUA há décadas”, disse Renee DiResta. “A IRA não os criou, apenas os explorou.”

Dissuasão

Das 81 páginas no Facebook criadas pela companhia russa no levantamento do Senado, 30 tinham como alvo público afro-americano, acumulando 1,2 milhão de seguidores. Em comparação, 25 páginas sobre política de direita atraíram 1,4 milhão de seguidores. Apenas sete páginas foram criadas direcionadas à política de esquerda, que obteve 689.045.

Enquanto as páginas de direita promoviam a candidatura de Trump, as da esquerda desprezavam Hillary enquanto promoviam o senador democrata Bernie Sanders e Jill Stein, candidata do Partido Verde – ambos disputaram as primárias com Hillary.

Os esforços para tentar dissuadir os eleitores concentraram-se particularmente nos partidários de Sanders e nos eleitores afro-americanos, instando-os a se afastarem de Hillary nas eleições, a votarem em Jill Stein ou a ficarem em casa.

Se esforços dos russos tiveram um efeito significativo é difícil de julgar, de acordo com o New York Times. A participação dos eleitores negros diminuiu em 2016 pela primeira vez em 20 anos em uma eleição presidencial, mas é impossível determinar se isso é resultado da campanha russa.

O relatório do New Knowledge argumenta que a presença da companhia russa no Instagram tem sido subestimada e pode ter sido tão eficaz ou mais eficaz do que o esforço do Facebook. O relatório diz que havia 187 milhões de engajamentos no Instagram – usuários “curtindo” ou compartilhando o conteúdo criado na Rússia – em comparação com os 76,5 milhões no Facebook. / NYT