Que tal já começar a planejar as próximas férias? Caça ao tesouro na África: safáris em Botsuana e no Zimbábue

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Não teve jeito: toda a viagem lembrou cenas de 'O Rei Leão' Foto: Anna Carolina Papp

MAUN – “Olhe, Simba. Tudo isso que o sol toca é o nosso reino.” Sendo uma criança dos anos 1990, ao desbravar a savana africana pela primeira vez era impossível não me lembrar constantemente do filme O Rei Leão – que em julho deste ano ganha nova versão nas telonas. Entre árvores de galhos retorcidos, arbustos e um tapete de gramíneas douradas, que descansam sob um céu com paleta de cores ímpar, há Simbas, Mufasas, Timões, Pumbas e Zazus por toda parte.

Se aventurar num jipe, numa canoa ou mesmo a pé pelo “reino” é uma eterna caça ao tesouro, que compassadamente alterna picos de adrenalina com momentos de contemplação. É sentir-se pequeno diante da beleza implacável da vida selvagem em sua forma mais crua e genuína.

Fazer um safári é uma experiência incomparável. Embora a África do Sul seja a principal referência no assunto, há outras opções no continente, como em Botsuana e Zimbábue, focos desta reportagem.

Filhote de elefante durante safári em Botsuana Foto: Anna Carolina Papp/Estadão

O coração pulsante de Botsuana é o Delta do Okavango, maior delta interno do mundo, que nasce em Angola e corre por uma bacia hídrica no deserto do Kalahari, garantindo a Botsuana uma vida selvagem rica e de dar inveja a seus países vizinhos. É bem provável que você saia de lá cumprindo o check-list de ver os chamados “big five” – leão, leopardo, elefante, búfalo e rinoceronte –, isso sem contar os bônus: zebras, girafas, cervos, hipopótamos, hienas, suricatos, macacos e outras espécies cujos nomes você aprende (e tenta memorizar) ao longo da jornada.

A marca dos safáris em Botsuana é o turismo de conservação, que alia a experiência de descoberta desse rico ecossistema a práticas de sustentabilidade e defesa do meio ambiente. Ali, a caça é proibida – o que torna o país um lugar propício também para a reinserção de espécies ameaçadas de extinção, como o rinoceronte (leia mais abaixo). Para bancar esse modelo, o país aposta no turismo de extremo luxo, mas ainda assim “raiz”: as hospedagens são, ao mesmo tempo, rústicas e extremamente sofisticadas, caso do Great Plains Conservation, onde nos hospedamos.

O caminho para chegar aos camps é longo. Embarcamos no voo da South African de São Paulo até Johannesburgo, na África do Sul, em um voo de 8h30. De lá, seguimos a Maun, em Botsuana, num trajeto de mais 2h30. Depois, nos aventuramos em um “teco-teco”, operado por uma companhia chamada Mackair. Dá frio na barriga, mas os aviões são seguros e confortáveis.

Antílope, figurinha facil na savana de Botsuana Foto: Anna Carolina Papp/Estadão

De Botsuana, pegamos mais um voo até o Zimbábue, rumo a uma vivência diferente pela savana do Zambezi National Park. A vida selvagem pode não ser tão rica quanto em Botsuana, mas está longe de decepcionar, e as hospedagens são menos isoladas. Os safáris, porém, não são a única atração. Além das game drives (os safáris com jipe), o turista pode se encantar com passeios de barco pelo Rio Zambeze, além de conhecer as cataratas de Victoria Falls.

A experiência foi um convite a explorar os sentidos. Das incríveis vistas ao sobrevoar a savana aos rugidos que ecoavam nas tendas à noite. Uma chuva de estímulos, cores, sons, cheiros, sabores e sensações. Como na canção, um ciclo sem fim.

SAIBA MAIS

Voo: SP – Maun – SP a partir de R$ 3.130,72 na South African Airways, com escala em Johannesburgo.

Embarque na África do Sul em voo da South African Foto: Reuters

Mala: leve roupas leves e confortáveis. Opte por cores neutras e evite peças brilhantes para não chamar a atenção dos animais. Leve uma jaqueta leve para aquele friozinho do início e fim do dia, capa de chuva, roupa de banho e calçados confortáveis. Como a locomoção entre camps é feita em aviões pequenos, não exagere na mala (o peso máximo permitido é de 20 quilos) e prefira as maleáveis.

Fotos: o celular não tem o zoom que você vai precisar para tirar boas fotos. Invista em uma boa câmera, com lente teleobjetiva.

Extras: protetor solar e labial, hidratante, colírio e soro para o nariz serão seus amigos contra o clima seco.

*VIAGEM A CONVITE DE GREAT PLAINS CONSERVATION E DA SOUTH AFRICAN AIRWAYS.

Sono na savana

Hospedar-se em uma tenda na savana é experimentar a delícia e a aventura de se sentir vulnerável. À noite, os altos e constantes barulhos de animais dão a impressão de que eles estão praticamente dentro da tenda (calma, é seguro!). Rugidos de leões, gritos de hipopótamos e outros tantos que eu não conseguia adivinhar. Pela manhã, a tenda balançava com pulos de macacos de um lado para o outro. Ao colocar a cabeça para fora, era possível ver búfalos e elefantes, a poucos metros, como se nem notassem nossa presença.

Em Botsuana, as tendas da Great Plains Conservation são tendas mesmo, de lona – o que proporciona uma relação diferente com a natureza. É ficar exposto e se sentir não um mero observador, mas parte de tudo.

Quando se fala em tendas, tenha em mente que não se trata de barracas de camping. O serviço é cinco estrelas e, dentro delas, o turista encontra uma cama grande, banheira, chuveiro interno e externo – quem resiste a ter a visão da savana durante o banho? Nas suítes ou villas, disponíveis em alguns camps, duas tendas desfrutam de uma sala privativa, com bar próprio – de vinhos sul-africanos a Amarula (no primeiro que ficamos, o Duba Plains, havia 14 tipos de gin).

Cada tenda tem a própria piscina e até aparelhos para exercícios. E os hóspedes têm à disposição câmeras profissionais – você vai precisar delas se quiser voltar com bons cliques.

A empresa foi criada pelo casal de cinegrafistas Beverly e Dereck Joubert, autores de diversos documentários da National Geographic e especialistas em vida selvagem com décadas de trabalho e pesquisas em solo africano. Ao todo, a Great Plains conta com nove propriedades em três países: Botsuana e Zimbábue (onde visitamos cinco camps), além do Quênia.

A preocupação com a sustentabilidade é constante: os camps têm autossuficiência em energia solar, não usam plástico, fazem reciclagem e compostagem. Além disso, o lucro é revertido em ações de conservação ambiental, apoio às comunidades locais e aos projetos de sua própria fundação, The Great Plains Foundation.

Um deles é o Rhinos Without Borders (Rinocerontes Sem Fronteiras), em parceria com outra empresa de safári, a AndBeyond. O objetivo é proteger esses animais, muito visados por caçadores por causa de seu chifre. Estima-se que, desde 2008, 7 mil rinocerontes foram mortos na África do Sul.

O objetivo do projeto é transportar os bichos de áreas de risco na África do Sul para as savanas de Botsuana, onde a caça é proibida e há leis rígidas de preservação. Os animais são transportados via área, e em novembro 87 deles já estavam no país. Durante os safáris, pudemos ver seis deles em seu novo lar.

Exclusividade

Sinônimo de luxo ali é exclusividade. Por isso, cada área tem apenas de quatro a seis tendas. A equipe é atenciosa e prepara mimos como banho de espuma e jantar à luz de velas no meio da savana. Aliás, a gastronomia é um capítulo à parte, com pratos internacionais com temperos africanos – destaque para o bobotie, espécie de bolo de carne com especiarias. O café da manhã pode ser tomado na tenda ou “on the go”, ou seja: em uma mesa posta durante o safári. Recomendo.

Entre os cinco camps que ficamos, o Duba Plains e o Zarafa Camp, ambos em Botsuana e com o selo Relais & Châteaux, são impecáveis. Parecem oásis em meio à savana, com suas tendas gigantescas, alta gastronomia e serviço irretocável.

Menos luxuosas, mas ainda exclusivas, são o Duba Explorers e o Selinda Explorers (também em Botsuana). Essa última tem decoração em estilo marroquino e é o único sem Wi-Fi, além de ter o uso de energia mais controlado. Ainda assim, foi meu favorito, por suas belas acomodações e o emocionante safári a pé.

Nesses camps, considerados mais econômicos, as diárias por pessoa começam em US$ 825; os mais luxuosas têm tarifa a partir de US$ 1.460. O ápice da autoindulgência é optar pela suíte (villa), que acomoda dois casais, com área privativa, jipe, guia e chef próprios. A diária, para quatro pessoas, vai de US$ 7 mil a US$ 13 mil, a depender da temporada.

Os valores incluem quase tudo: game drives (um de manhã e outro à tarde), todas as refeições, bebidas à vontade e atividades como safáris a pé e passeios de barco ou canoa. Poucas coisas são cobradas à parte, como massagens (desde US$ 50) e tratamentos estéticos. Tudo para que você passe os dias em ritmo de hakuna matata.

O bingo dos bichos

Quem vai à África fazer safári carrega consigo grandes expectativas – cada um tem sua própria listinha de bichos desejados, além dos big five. Por isso, cada game drive (as saídas de jipe para observação) funciona como uma espécie de caça ao tesouro, seguindo uma série de pistas para alcançar o objetivo, fazendo jus ao nome game (jogo).

É preciso acordar cedo: o primeiro safári normalmente ocorre entre 5h30 e 6h, quando os animais estão mais ativos, por conta das temperaturas amenas. Madrugar vale a pena: acompanhar as cores do nascer do sol na savana é um espetáculo à parte.

Avistei o primeiro animal dez minutos depois de deixar as tendas: um simpático veadinho. Logo tirei minha câmera e fui disparando mil cliques. O guia – que também é o motorista – me observava curiosamente, com um sorrisinho no canto da boca. “Fique tranquila, vamos ver muitos e muitos desses ainda”, brincou. Dito e feito. Não deu nem 20 minutos e já avistamos um grupo com dezenas, talvez centenas, de antílopes.

E aí começa o “bingo dos bichos”. O primeiro elefante, o primeiro leão, a primeira girafa, a primeira zebra, filhotes que ganham apelidos: Dumbo, Simba, Nala… O que acontece, porém, é que ficamos cada vez mais exigentes. Se a primeira zebra arranca suspiros e interjeições, depois de alguns dias elas viram parte da paisagem. Chega uma hora que você só quer saber dos felinos. Especialmente o leopardo.

Demorou quatro dias para encontrarmos o primeiro – ao longo da jornada, seriam quatro (muita sorte). De repente, em cima da árvore lá ela estava: uma fêmea adolescente, nos contou o guia. Imponente, porém tranquila. Um dos encontros mais bonitos que já presenciei.

O meu bingo particular, cheio de referências de O Rei Leão, tinha também hienas – eu era a única do grupo interessada em encontrá-las. Demorou, mas nos últimos dias as vimos. Só faltou a icônica risada.

Um dia é da caça…

Nada, no entanto, nos prepara para ver uma caça ao vivo. Estávamos observando uma leoa quando ela começou a demonstrar sinais de inquietação (não em nossa direção, ufa). Foi quando observamos um pequeno javali-africano (ou Pumba). Em seguida, outra leoa apareceu na ponta oposta: estava armada a emboscada.

Elas se aproximavam lentamente, com os olhos fixos em seu alvo. Até que uma delas deu um salto em direção ao pequeno animal, que disparou a fugir numa velocidade surpreendente. A outra tentou encurralá-lo, mas ele escapou. “Vocês acabaram de presenciar algo muito, muito especial”, disse o guia.

Dias depois, vimos um leopardo perseguir um casal de javalis e seus filhotes. Ficamos mais de 40 minutos acompanhando seus movimentos meticulosos. Para a nossa surpresa, eles também escaparam – seríamos nós o amuleto de sorte desses bichinhos?

Fazer safári é assistir ao espetáculo da natureza como ela é, com suas belezas e suas verdades. Não testemunhamos a morte de nenhum animal, mas vimos felinos se alimentando de um antílope morto horas antes. Por outro lado, também encontramos um leão em uma situação vulnerável, com uma enorme ferida na perna, fruto de uma briga com um leão de outro território.

Há momentos cheios de poesia, como a girafa que caminhava com um grupo de zebras, tal qual uma professora andando com seu grupo de pupilos em uma excursão escolar. Se alguma se afastava, a girafa parava e esperava para todos caminharem juntos.

Os game drives não são a única opção de safáris: há também de barco ou canoa (para ficar pertinho dos hipopótamos) ou mesmo a pé. Nesses trajetos, é preciso estar sempre em silêncio e obedecer as instruções do guia.

De fato, há muita adrenalina em ficar exposto savana afora, sem o escudo do carro. No entanto, os guias são extremamente preparados. Além disso, fui convencida de que os animais têm mais medo de nós do que nós deles: pude observar isso quando um grupo de búfalos disparou em fuga conforme nos aproximávamos, caminhando.

Às margens de Victoria Falls

Fazer safári no Zimbábue não é apenas para ver animais. O Zambezi National Park, onde é realizada a maior parte dos games, fica do ladinho de Victoria Falls, as imponentes cascatas que integram a lista das Sete Maravilhas do Mundo Moderno.

Por se tratar de uma reserva, a vida selvagem ali não é tão rica como em Botsuana – os felinos, por exemplo, não são vistos com tanta facilidade. Mesmo assim, vale a pena: o contato com os animais é bem próximo, sobretudo de elefantes. A região também é excelente para os birdwatchers, com dezenas de espécies de pássaros. Lembra de Zazu, de O Rei Leão? Avistamos dezenas deles (o calau africano). E também galinhas D’Angola (o guia riu demais quando falamos o nome dela em português. “Por que D’Angola, se também tem aqui?”).

As Victoria Falls marcam a divisa entre o Zimbábue e a Zâmbia. No idioma local, seu nome é Mosi-oa-Tunya, o que significa “fumaça que troveja”, em razão de seu volume d’água: pode atingir 500 milhões de metros cúbicos na época das cheia.

Nossa visita, em novembro, foi na época da seca, mas ainda assim a vista é de tirar o fôlego. A área seca se transforma em belos cânions, que rendem belas (e perigosas) fotos. Se quiser ver as quedas em toda a sua majestade, vá de julho a setembro. A entrada do parque nacional custa US$ 30 – em alguns camps, como o da Great Plains, já está incluída. Para ter uma ideia da dimensão das cataratas e do ambiente ao redor, o tour de helicóptero é inesquecível. Dura 13 minutos (passam voando, com o perdão do trocadilho) e custa US$ 130. Salgado, mas espetacular.

Do lado do Zimbábue, o passeio pelas cataratas se dá em um parque com extensa vegetação e trilhas muito bem sinalizadas. Na Zâmbia, é possível se aventurar nas piscinas naturais que se formam à beira da cascata e até fazer rafting. São experiências distintas: melhor vista no Zimbábue, mais atividades na Zâmbia.
Para atravessar a ponte e visitar o lado da Zâmbia, porém, é preciso passar pela alfândega – é possível pegar o visto na hora. Se souber com antecedência que vai visitar ambos, peça o visto de dupla entrada no aeroporto da cidade de Victoria Falls.

Ali, nos hospedamos no Mpala Jena, o mais novo camp da Great Plains, inaugurado em 30 de novembro e a apenas 40 minutos de carro do aeroporto. Com apenas quatro tendas, todas com piscinas privativas, a acomodação é a primeira autossuficiente em energia solar do Zimbábue.

Para recarregar a sua energia, contudo, nada melhor do que tomar um drinque ao pôr do sol, num passeio de barco pelo Rio Zambeze. Os seus problemas você certamente vai esquecer.

Dicas e curiosidades

1 – Cocôs valiosos
As fezes estão entre as dicas mais valiosas para identificar qual bicho está por perto. Assim, você logo aprende a diferença entre as da girafa (que parecem bolinhas de gude) e as da hiena (brancas, por causa do cálcio presente nos ossos que roem). Ah, as pegadas também são importantes.

2 – Esquisitices
No safári, você aprende que a girafa tem quatro estômagos e que os gigantes cupinzeiros que se vê pela savana sempre apontam para o oeste.

3 – Salve-se quem puder
Correr em ziguezague é a única maneira de tentar se salvar de um crocodilo. Jamais fique entre um hipopótamo e a água (aliás, se precisar temer um felino ou o hipopótamo, corra do hipopótamo, veloz e furioso).

4 – Carinho animal
Pássaros pousam em rinocerontes, búfalos e elefantes por uma relação de mutualismo: eles se alimentam de parasitas. É impressionante também acompanhar a saudação entre os animais. Elefantes se aproximam e trançam suas trombas, numa espécie de abraço. Já os leões encostam a cabeça um no outro e depois esfregam suas belas jubas, também como uma forma de cumprimento. É de arrepiar.