Biografia narra saga da guerreira africana que defendeu seu reino dos portugueses

'Jinga de Angola' mostra como a rainha empreendeu campanhas militares bem-sucedidas até os 75 anos de idade

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Lesliana Pereira protagoniza 'Njinga Rainha da Angola' (2013), de Sérgio Graciano Foto: Semba Comunicação

Nos anos 1630, acuada pelo avanço dos portugueses sobre as terras de Ndongo e com exércitos derrotados e diminuídos, a rainha africana Jinga toma uma decisão radical: se juntar aos terríveis imbangalas, um povo cujos costumes de carnificina, crueldade e canibalismo amedrontavam tanto inimigos quanto aliados. Para alcançar a posição de líder, ela se entregou a uma surpreendente transformação de gênero. A rainha pediu que seus seguidores a considerassem parte do sexo masculino; casou-se com um homem e insistiu que ele se vestisse como mulher; aumentou o número de seus concubinos e exigiu que eles usassem as roupas de suas guarda-costas femininas. Logo assumiria o título de Rainha Jinga, Mestre de Armas e Grande Guerreira e, com forças renovadas, empreenderia uma série de bem-sucedidas campanhas militares que aumentariam em larga parte seu território e desafiariam seus colonizadores.

Repetidas vezes ao longo de sua longeva história de 81 anos, Jinga moldaria sua imagem de modo a dobrar a vontade de seus vassalos e conquistar o respeito e temor de seus rivais. Ao final da vida, ela havia alcançado a paz com os portugueses e a soberania incontestada de Ndongo e Matamba, hoje parte de Angola, sob o reconhecimento do papa Alexandre VI. Seu caráter é complexo e difícil de resumir. Após sua morte, ela foi vilanizada por escritores europeus como uma “selvagem incivilizada que encarnava o pior do gênero feminino”; mais tarde, já no século 20, Jinga seria festejada como uma heroína libertadora de seu povo, “mãe da nação angolana moderna”. Hoje, ela está representada na tradição das congadas e é homenageada em enredos de escolas de samba.

Esses retratos distintos estão em Jinga de Angola: a Rainha Guerreira da África, lançado pela editora Todavia. Segundo a autora, a professora da Universidade de Boston Linda M. Heywood, é a primeira biografia séria a ser escrita sobre ela em qualquer idioma. “Retratar a vida de Jinga nos dá a oportunidade de ir além das performances culturais populares que destacam apenas um aspecto da vida dela”, afirma Heywood, em entrevista exclusiva ao Aliás. “Resgatar ela como uma figura histórica nos permite representar os africanos como agentes ativos na construção da história mundial.”

Descrever a trajetória de Jinga é colocar lado a lado aspectos admiráveis de sua personalidade – como sua bravura, seu tino para a estratégia militar e seu talento para a diplomacia – a práticas que hoje são impensáveis para mentes modernas. Ao se tornar guerreira imbangala, a rainha aderiu a rituais sangrentos de canibalismo e infanticídio. Por toda a vida, Jinga manteve e comercializou escravos – muitos deles eram oferecidos como presente em incursões diplomáticas. “Devemos lembrar que os líderes da Angola do século 17 viviam em um mundo muito diferente do nosso”, ressalta Heywood. “Os portugueses também usaram os imbangalas como aliados na conquista do Ndongo. E tanto os africanos quanto os portugueses estavam envolvidos no comércio e no uso do trabalho dos africanos escravizados”.

Também é difícil descrever Jinga a partir de seu gênero. Desde cedo, ela usufruiu das mesmas liberdades que os equivalentes do sexo masculino. Na infância, tinha uma relação especial com o pai, incomum para uma menina filha de rei, e aprendeu sobre as atividades políticas, militares e rituais dos governantes. Muito jovem, desenvolveu habilidades extraordinárias com o machado de guerra – e até ficar velha liderava suas tropas em batalhas. A última que comandou pessoalmente foi aos 75 anos de idade.

Os portugueses tentaram desqualificar o direito de Jinga a governar por ser mulher; ela se recusou a permitir tal deslegitimação. Mas o ápice dessa inconformidade com normas de gênero definitivamente está no ritual imbangala. “Apesar da transformação de gênero que Jinga passou, ela estava muito à vontade com sua feminilidade. Ele não era de maneira alguma transgênero”, contrapõe Heywood. “A maioria das pessoas que entraram em contato com ela pensaram que ela era vaidosa. Ela também teve muitos amantes, e casou-se com um homem robusto muitas décadas mais jovem quando estava em seus 70 anos.”

Um dos aspectos menos incontestáveis dessa figura histórica é o fascínio e o poder que Jinga exerceu sobre o imaginário coletivo do seu povo ambundo. O prenúncio disso já estava em seu parto: ela nasceu em uma posição virada, e os sacerdotes tomaram isso como sinal de uma vida incomum. A rainha assumiu um reino diminuto e enfraquecido em 1624 depois do desastroso governo de seu irmão, Ngola Mbande. Apesar do exército desmobilizado e com menor poder de fogo que os rivais europeus, Jinga costurou alianças com imbangalas, holandeses e com reinos africanos vizinhos. Em seu auge, governava um quarto do que hoje corresponde ao Norte de Angola.

Na velhice, cansada de guerrear, se converteu ao catolicismo e firmou a paz com Portugal. Deixou à irmã, Bárbara, um reino independente. Muitos de seus súditos acreditavam que ela detinha poderes especiais; outros tinham fé em sua imortalidade. Um dos historiadores portugueses que registrou a época de Jinga escreve que, 18 anos após a morte da rainha, ainda havia gente que acreditava que ela vivia escondida em seu quilombo, “velha e despossuída de seu reino e senhorios”.