Atuar pelo fim da discriminação racial é fundamental para efetivação de direitos, diz executiva

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Lisiane Lemos é especialista de soluções da Microsoft e membro do Conselho Consultivo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Foto: Acervo Pessoal

A intolerância, o racismo, a xenofobia e qualquer outro tipo de discriminação são obstáculos ao desenvolvimento sustentável e aos direitos. A campanha Vidas Negras, lançada pelas Nações Unidas em 2017, chama a atenção e sensibiliza para os impactos do racismo na restrição da cidadania de pessoas negras, influenciando atores estratégicos na produção e apoio de ações de enfrentamento da discriminação e da violência.

Para marcar Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, lembrado na quinta-feira (21), o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) conversou com Lisiane Lemos, jovem, negra, gaúcha e formada em Direito. Atualmente, é especialista em soluções de suporte da Microsoft e também participa da iniciativa Blacks at Microsoft no Brasil, uma política para a inclusão de pessoas negras na empresa que promove a tecnologia como um instrumento de ascensão social. Desde janeiro de 2018, ela também faz parte do Conselho Consultivo do UNFPA e é considerada uma das pessoas negras mais influentes do mundo.

Na entrevista, Lisiane falou sobre a importância de atuar pelo fim da discriminação racial para a efetivação de direitos. A conselheira do UNFPA destacou ainda que investir em habilidades para a vida está entre as estratégias adotadas por ela para seguir na luta pelo fim da discriminação racial, para a população negra e demais grupos historicamente discriminados. Leia a entrevista:

UNFPA: Em outubro de 2018, você foi a vencedora da categoria empreendedorismo do Most Influential People of Africa Descent (MIPAD), com isso, é considerada uma das pessoas negras mais influentes do mundo. Como se sente com um título como esse?

Lisiane Lemos: A categoria na qual fui premiada é de empreendedorismo e negócios. Receber o prêmio foi uma honra. Saber que diversidade, inclusão e inserção de profissionais negros no mundo corporativo pode ser reconhecido mundialmente é de uma felicidade extrema, e acho que a responsabilidade tem um pouco de gratidão a tudo o que eu fiz até agora, tudo o que eu estudei, todos os processos que eu passei valeram muito a pena.

Além disso, dá aquele gás de que tem que continuar, trazer mais aliados, inspirar pessoas novas e aprender com pessoas mais velhas que já trilharam essa jornada. É importante respeitar a história de quem veio antes e construir uma nova história com quem está chegando.

UNFPA: Em 2017, você apareceu também na lista da Forbes Brasil entre os(as) 91 brasileiros(as) mais promissores(as) com menos de 30 anos. Como você usa a sua influência para contribuir para o enfrentamento da discriminação racial?

Lisiane Lemos: A data de 21 de março é significativa e eu acho importante ressaltar que para desenvolver todo o trabalho tem que ter uma plataforma, e eu sou muito grata por trabalhar em uma empresa que é uma plataforma para que eu desenvolva os meus trabalhos.

Eu tenho focado e acho que posso fazer o trabalho de advocacy e influenciar pessoas que estão em cargos de liderança. Acho que é necessário uma evolução, porque na base, enquanto trainee, enquanto jovem aprendiz, pessoas negras são uma porcentagem alta, mas quanto mais se sobe na pirâmide, mais baixo o percentual fica, então, precisamos de mais vozes que deem visibilidade para inverter esses números.

E a gente precisa de pessoas que estejam dentro do mundo corporativo para falar sobre isso. Esse é o meu trabalho, utilizando meu próprio caso para alavancar os outros profissionais.

UNFPA: Segundo pesquisa do Instituto Ethos, pessoas negras não chegam a 5% daqueles que ocupam cargos executivos no Brasil. Homens negros correspondem a 4,6% e mulheres negras a 0,7%. Quais são os desafios que ainda estão diante das mulheres negras e executivas?

Lisiane Lemos: Acho que a cada ano estamos avançando mais e conseguindo desmistificar o mundo corporativo para pessoas negras como espaços que elas podem estar. O que eu vejo como desafio é como levar profissionais seniores a cargos de liderança, pois é inconcebível saber que tenha menos de 5% de pessoas negras em cargos de liderança.

Hoje temos diretoras em grandes empresas, mas o desafio é como a gente vai perpetuar isso, para que pessoas da minha idade e até mais velhas sonhem e acabem empreendendo, porque a gente sabe que a maioria dos empreendedores de base ainda são negros e negras. Então, eu tenho particularmente uma grande preocupação com o plano de carreira, evolução e qualificação dessas pessoas, que é um desafio que eu só comecei a enxergar estando no mundo corporativo.

UNFPA: O racismo atua de diversas maneiras e uma de suas faces mais conhecidas é o racismo institucional — aquele que se materializa nas normas, procedimentos, protocolos e formas de atuar das instituições, sejam elas públicas ou privadas, colocando determinados grupos raciais ou étnicos em situação de desvantagem. De que maneira o racismo institucional pode ser combatido?

Lisiane Lemos: Existem dois grandes exemplos, primeiro é ter um espaço seguro para que as pessoas possam discutir isso, de que forma isso nos atinge, no dia a dia, dentro e fora da empresa. O segundo é a qualificação técnica. Mas não existe uma fórmula mágica. A solução é trabalhar com autoliderança, advocacy e diálogo.

UNFPA: Atualmente você faz parte do Conselho Consultivo do UNFPA, quais medidas acredita que as organizações podem tomar no sentido de enfrentar a discriminação racial?

Lisiane Lemos: Primeiro é necessário estar aberto a ouvir, trazer exemplos, trazer pessoas para analisar de uma forma crítica os processos de contratação, retenção e promoção, ou seja, ter uma escuta ativa e aberta.

Aprendi trabalhando com tecnologia que, contra dados, não há argumentos, então, é necessário analisar os níveis, a evolução do profissional, se está crescendo, se está descendo, e incentivar de uma forma ativa a permanência e o crescimento dessa pessoa. Além disso, subsidiar treinamentos e viagens, porque isso não motiva só a pessoa, motiva uma comunidade.

UNFPA: Na América Latina, mais de 200 milhões de pessoas se identificam como afrodescendentes, estas pessoas constituem alguns dos grupos mais pobres e marginalizados, em sua maioria com acesso limitado a uma educação de qualidade. Você teve a oportunidade de estudar e de trabalhar em uma multinacional. Que estratégias você tem utilizado para não fazer parte dessa estatística, enquanto latino-americana, mulher e negra?

Lisiane Lemos: Às vezes eu brincava que no “score catch” de diversidade, eu estava fazendo muitos pontos, porque eu sou mulher, negra, jovem, vinda do interior do Rio Grande do Sul, minha família é de baixa renda e ninguém trabalha no mundo corporativo. Existem várias coisas que me tornam um ser único. Não há um fórmula, não é porque eu subi que vai ser igual para todo mundo, existe uma questão de oportunidade.

No início da minha carreira, eu tive muita qualificação profissional, aprendi um idioma muito cedo e meus pais viram a importância disso. Então, ter qualificação técnica é muito importante. Acho necessário ter nitidez sobre onde você quer trabalhar. Depois que eu comecei a trabalhar com tecnologia, eu descobri que era onde eu queria ficar.

Cheguei num ponto da carreira também que precisei de assessoria profissional para ter uma visão mais clara sobre os próximos passos a seguir. Ter clareza do que quer, fazer aliança e quais os passos a seguir são variáveis que eu fui conquistando ao longo do caminho.

UNFPA: Qual conselho ou mensagem gostaria de repassar em alusão ao Dia Internacional de Luta para a Eliminação da Discriminação Racial?

Lisiane Lemos: Racismo existe e machuca. Sejamos incansáveis no combate, sejamos incansáveis na luta, sejamos pacientes porque é um processo longo, mas não devemos nos acomodar. Sejamos ativistas, porque não é só uma causa de pessoas negras, é uma causa de pessoas que se importam com pessoas.