Marva Griffin, curadora do Salone Satellite de Milão, dá dicas de como ser bem-sucedido no setor

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Marva Griffin, curadora do Salone Satellite de Milão Foto: DUNCAN MCCALLUM

Marva Griffin Wilshire é uma mulher forte, de olhar apurado e um dos nomes mais influentes do Salão do Móvel de Milão. Espécie de Midas entre os aspirantes ao Olimpo do design, ela é fundadora e curadora do Salone Satellite. Um projeto que nasceu em 1998 com a missão de descobrir e revelar ao mundo os novos talentos do setor. Por seu crivo já passaram respeitados nomes da atualidade, entre eles Oki Sato, do Studio Nendo e os irmãos Campana. Ao longo de 22 edições, mais de 10 mil projetos já entraram em acirrada disputa que, via de regra, têm o crivo de Marva como premissa. Junto a um comitê formado por diretores criativos, curadores e jornalistas, ela elenca os trabalhos mais instigantes e relevantes ao mercado. Para esta edição, a comida serviu como tema. “O objetivo era receber propostas para o futuro da indústria alimentícia, diminuindo os impactos ambientais e a quantidade de lixo produzido”, conta ela. O primeiro lugar ficou com o estúdio japonês Kulil-Kuli e seus artigos feitos com couro descartado pela indústria de carne bovina de Kobe. Aqui, Marva, que nasceu na Venezuela e radicou-se na Itália na década de 70, conta ao Casa como identifica os melhores projetos e como a confiança em si pode conduzir um profissional ao sucesso.

Como enfrenta o desafio de detectar o novo após tantas edições do Satellite?

Sempre tive um radar para a novidade, algo quase nato. Mas, no caso do concurso, isso não é o mais relevante. Apenas sei detectar o frescor e a capacidade de trabalho de um determinado designer, já que faço isso há 22 anos. Mas, depois, cabe somente a eles correrem atrás do que querem. Decido junto a um comitê formado por experts e buscamos projetos que tragam soluções inovadoras, provocativas e que, principalmente, despertem algo no mercado.

A plataforma de exibição dos projetos selecionados pelo Satelitte 2019
A plataforma de exibição dos projetos selecionados pelo Satelitte 2019 Foto: LUDOVICA MANGINI

Você acredita em design nacional, seja ele de qual parte do mundo for? 

Não. Acho que as pessoas trazem consigo suas referências pessoais o que, naturalmente, acaba se refletindo em seus trabalhos. Mas isso não as definem nem a elas nem o produto final. Alguém nascido na América Latina ou África, por exemplo, costuma ter a natureza mais presente em suas criações do que alguém criado no Japão. Os irmãos Campana são prova disso. Fazem coisas incríveis que dificilmente passariam na mente de um europeu e, mesmo assim, são absolutamente internacionais.

Qual conselho você daria a um jovem interessado em participar do Satellite?

Ter menos de 35 anos é pré-requisito. No mais, ir atrás do que se sonha e se sente capaz de fato. Eu acredito que, seja lá qual for a carreira que se pretenda seguir, se você está realmente preparado e tem um objetivo concreto, suas chances de sucesso são imensas. Eu, por exemplo, nasci em El Callao, na Venezuela, quase fronteira com o Brasil. Desde pequena minha brincadeira era deixar a casa bonita, arrumar as flores. Adorava aprender idiomas, viajar e me interessava tudo o que acontecia no mundo. Vim para Itália há quase 40 anos e decidi que ficaria aqui e trabalharia para isso. E foi assim que as coisas aconteceram. Fui intérprete, me tornei jornalista especializada em interiores e comecei minha carreira no mundo do design. A história de onde viemos até pode interessar, mas a vitória mora no trabalho e na confiança própria.

O alone Satellite de Milão 2019, que teve como tema, comida
O alone Satellite de Milão 2019, que teve como tema, comida Foto: LUDOVICA MANGINI