Desigualdade no futebol: jamaicanas lutam por patrocínio

Conhecidas como Reggae Girlz, as atletas da seleção da Jamaica buscam benfeitores para garantir sua participação em competições; filha de Bob Marley entra na briga

0
2810
A filha de Bob Marley, Cedella, tem sido uma benfeitora da equipe feminina jamaicana. Foto: Scott McIntyre para The New York Times

DAVIE, FLÓRIDA – O cônsul-geral da Jamaica na Flórida realizou uma festa em sua casa em 22 de maio para celebrar as Reggae Girlz (como são conhecidas as jogadoras da seleção jamaicana), o primeiro time nacional de futebol do Caribe a se classificar para a Copa do Mundo Feminina.

As mesas estavam dispostas ao redor da piscina, e as jogadoras e seus treinadores estavam lá, mas cada convidado foi estimulado a trazer algo extra: uma doação de pelo menos US$ 100 para ajudar a Jamaica a completar seus preparativos para competir na Copa da França. Com o torneio a apenas algumas semanas de distância (os jogos começaram em 7 de junho), o tempo, como o dinheiro, foi curto.

Se a história do futebol feminino nos últimos anos tem sido a luta contínua pelo salário igual, sempre houve uma desigualdade diferente logo abaixo da superfície. Enquanto o futebol internacional feminino tem feito progressos significativos em alguns países, o apoio a ele, em especial financeiramente, de federações individuais e patrocinadores corporativos continua a variar.

O futebol internacional feminino há muito tempo enfrenta uma batalha de Sísifo para ganhar respeito. A equipe feminina americana continua a achar necessário processar o futebol americano por discriminação de gênero. Jogadoras na Austrália e em outros lugares se recusaram a disputar partidas, e estrelas de outros países se tornaram públicas com reclamações sobre pagamento e falta de jogos.

Tem sido uma situação particularmente difícil no Caribe, onde o futebol foi afetado pela corrupção.

Apesar das lutas, a França, o país anfitrião do campeonato deste ano, tem uma liga profissional próspera. E os Estados Unidos, o atual campeão e três vezes campeão do torneio, fizeram uma suntuosa turnê pelo país, repleta de cartazes gigantes em prédios da cidade.

A chegada da Jamaica à Copa do Mundo foi muito menos visível, e a mera existência de seu programa é muito menos segura financeiramente. As Reggae Girlz receberam apoio escasso de sua federação nacional. Recentemente, em 2015, a federação cortou o financiamento para a equipe.

Sinais das lutas da equipe da Jamaica não foram difíceis de encontrar. Na festa em maio, a equipe técnica vestia camisas destinadas à seleção masculina e usava marcadores para riscar o apelido da equipe – “Reggae Boyz” – nas mangas. Algumas jogadoras ainda precisam comprar suas próprias chuteiras. E quando a equipe feminina se classificou para a Copa do Mundo em outubro passado, vários treinadores pagaram do próprio bolso por jaquetas para que suas jogadoras pudessem treinar no clima frio e chuvoso.

Nenhuma autoridade de alto escalão da federação jamaicana esteve presente para comemorar essa importante qualificação na disputa de pênaltis contra o Panamá, de acordo com treinadores da equipe.

“A atitude deles foi muito ruim”, disse a goleira Nicole McClure, 29, sobre a federação jamaicana de futebol. “Sempre fomos uma consideração tardia e ainda lutamos pela igualdade”.

No entanto, ela e suas colegas de equipe – e os treinadores da Jamaica – reconheceram que as coisas estão melhorando, pelo menos por enquanto. As jogadoras da Copa do Mundo da Jamaica assinaram um contrato com a federação que vai pagar de US$ 800 a US$ 1.200 por mês, retroativos desde janeiro, disse o treinador Hue Menzies, que trabalha de graça desde 2015 e receberá US$ 40 mil, disse ele. Esta é a primeira vez que uma equipe de mulheres do Caribe assinou contratos com sua federação nacional.

“Nós não fomos pagos”, disse Menzies com uma risada. “Mas assinamos um contrato”.

Michael Ricketts, presidente da federação de futebol da Jamaica, disse que as críticas à organização foram “extremamente injustas”. Segundo ele, a federação gastou cerca de US$ 4 milhões com a equipe feminina desde que começou a se classificar para a Copa do Mundo. Ainda de acordo com Ricketts, os custos para manter um campo de treinamento ao longo de uma semana podem chegar a US$ 100 mil, e tem sido uma luta conseguir que espectadores e patrocinadores corporativos abracem a equipe.

Nestas circunstâncias, Ricketts disse: “Fizemos muito bem”.

A equipe técnica das Reggae Girlz contestou o valor de US$ 4 milhões. “De jeito nenhum”, disse o assistente técnico Lorne Donaldson.

Em vez disso, treinadores e jogadoras dão crédito amplamente a um benfeitor diferente, Cedella Marley, por ressuscitar a equipe feminina com a ajuda da Fundação Bob Marley, que leva o nome de seu pai músico.

Marley, irritada com o estado lastimável do programa, encabeçou uma iniciativa internacional de arrecadação de fundos para recuperá-lo há vários anos, e foi ela quem persuadiu Menzies, que administra um importante clube de futebol juvenil perto de Orlando, na Flórida, a se tornar seu treinador. Sem ela, “não haveria Reggae Girlz”, afirmou a goleira Nicole McClure.

Quando lhe perguntaram o quanto estava confiante no compromisso de longo prazo da federação, Menzies disse: “Não muito”. “Mas quando eles nos dizem não, isso apenas alimenta nosso fogo”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA