‘Minhas músicas não são para virar chiclete, quero falar de estudo’, diz MC Soffiac

De Martin Luther King a Beyoncé, jovem de 15 anos se inspira em referências negras e estreia ‘É o Hype’ para criticar o roubo de riquezas da África

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MC Soffia mistura estudo, autoestima e rap em suas músicas para levar reflexões ao público. Foto: Bruno Gomes

Era 2011 quando Soffia Correia subia na caixa d’água de cimento do seu prédio em Raposo Tavares, periferia de São Paulo, para cantar rap, com apenas sete anos. Só havia mato ao seu redor, mas, na cabeça fértil da criança, uma multidão de fãs ouviam e aplaudiam suas rimas. O tempo passou e ela ficou conhecida como MC Soffia, com letras de hip-hop que contam histórias afro-brasileiras, denunciam o racismo e incentivam garotas negras a se amarem do jeito que são.

Nascida em uma família de ativistas negros, as mensagens de empoderamento não vieram à toa. Hoje, com 15 anos de idade, a rapper diz que gosta ‘muito’ de estudar e acumula conhecimentos sobre Martin Luther KingZumbi dos Palmares e outras referências da negritude. O objetivo dela é levar seus estudos ao público e enfrentar preconceitos que afetam a autoestima desde cedo, como a ideia de que cabelo crespo é ‘ruim’ e outras visões racistas da sociedade.

Assim, a cantora mirim lança nesta sexta-feira, 2, a música É o Hype, que enaltece sua ancestralidade e critica o roubo de riquezas do continente africano. A faixa faz parte do álbum Soffisticada, que será lançado ainda neste ano, e a intenção da letra é mostrar que “grande parte da história ancestral negra foi apagada”.

“No refrão, eu falo para os europeus devolverem o ouro e a prata que roubaram da África, porque é um fato histórico que muita gente sequer conhece”, analisa. “Acham que é um ‘país’ onde só tem fome, miséria e falta de estudo, mas esquecem que é um território rico em muitos sentidos”, completa. O lançamento está disponível em todas as plataformas digitais. Ouça:

MC Soffia canta denúncias sociais desde os seus seis anos, e já atingiu milhões de visualizações no YouTube com canções como Menina Pretinha (2016), Minha Rapunzel tem Dread (2016) e Barbie Black (2018).

A adolescente explica que começou a falar de temas sérios muito jovem de forma natural, pois, ao seu ver, a criança aprende desde cedo o que é o racismo. “Ter falado sobre isso tão pequena foi bom, porque outras crianças novinhas que passam por isso pegam a música como referência e começam a entender o papel dela na sociedade para se empoderar”, afirma.

Com essa linha de pensamento, a rapper ficou entre as cem mulheres mais relevantes do mundo no ranking da BBC, em 2017, cantou na cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2016, no Rio, e está na lista das 52 mulheres ativistas do livro Resistentes: 52 mulheres jovens fazendo suas históricas agora, da jornalista inglesa Lauren Sharkey, lançado em fevereiro deste ano.

Em entrevista cedida ao E+, MC Soffia analisa o papel do ensino na compreensão da realidade, explica por que suas letras devem sempre passar mensagens de reflexão e deixa um recado para quem acredita que o que ela diz é ‘mimimi’. Leia abaixo.

E+: Você é vista por muitos como uma artista diferenciada, porque sua aceitação como menina negra vem desde pequena. O que você diria para outras garotas negras que ainda não se reconhecem como tal?

O essencial para toda menina é estudar. Quando ela estuda sobre a cor, o cabelo crespo e sua origem, tudo flui melhor, porque ela vai saber lidar com as críticas. Eu estudo bastante e tive o apoio familiar, mas existem famílias que não têm essa base. Então elas devem pesquisar no YouTube, porque muitas mulheres negras fazem vídeos sobre maquiagem para a pele de tom escuro, falam sobre a beleza do cabelo crespo e muitos outros assuntos. A negritude se ajuda bastante pela internet.

Sempre tive bonecas negras quando pequena, então eu podia me ver representada nelas. Isso me ajudou em muitas coisas também. Quando a professora, por exemplo, falava para eu pintar um desenho na cor de pele, eu usava o lápis marrom, preto, e não o rosa, como é de costume.

E+: Qual mensagem você quer deixar com a música É o Hype?

Quero mostrar que grande parte da nossa história negra e ancestral foi apagada. No refrão, eu falo para os europeus devolverem o ouro e a prata que roubaram da África, porque é um fato histórico que muita gente sequer conhece. Acham que lá é um ‘país’ onde só tem fome, miséria e falta de estudo, mas esquecem que é um território rico em muitos sentidos. Essa é a estrutura de pensamento que a sociedade fez.

[Além disso], muita gente cultiva a ideia de que ser negro é feio… então tem pessoas que preferem nem se reconhecer como tal. Quando todos nós, negros, tivermos com a nossa autoestima bem forte e soubermos falar sobre as nossas origens, vamos vencer muitas causas.

E+: Por que a música se chama É o Hype?

Estamos na era do trap, que é um subgênero do hip-hop. Os jovens estão curtindo muito o trap atualmente, incluindo eu, e hype é uma gíria do rap que designa estilo.

E+: Você tem só 15 anos e já fala de uma forma muito confiante sobre temas complexos, quais são as referências que te fizeram assim?

Minha escola tem um método de ensino diferente, que foca na pesquisa desde quando os alunos são pequenos. Eu sempre gostei de pesquisar sobre negros que ajudaram o Brasil, então estudei Zumbi dos Palmares e Martin Luther King, porque isso me dava base. Eu era a única menina da turma que apresentava coisas sobre negros, e transformei em música tudo que aprendi, desde criança.

O pilar para isso veio também da família. Sempre peço ajuda dos meus parentes. Eles me dão dicas dos conhecimentos culturais que possuem e coloco nas letras. Minha avó Lúcia Makena, por exemplo, é pedagoga e faz bonecas abayomis, que as mães africanas montavam com as roupas delas para as crianças brincarem no navio negreiro, aí isso me inspirou nas músicas Barbie Black e Menina Pretinha, em que canto “devolva minhas bonecas / Quero brincar com elas / Minhas bonecas pretas, o que fizeram com elas?

 

Vale dizer também que eu comecei a falar de temas sérios muito jovem de forma natural. A criança aprende cedo o que é o racismo: quando entra no mercado, na escola… então ter falado sobre isso tão nova foi bom, porque outras crianças novinhas que passam por isso pegam a música como referência e começam a entender o papel dela na sociedade para se empoderar. Quanto mas nova, melhor.

E+: É o Hype lembra o estilo do rapper Djonga no sentido de exaltar a autoestima, consciência racial e a autoconfiança. Por que o trap brasileiro explora tanto essas questões?

Eu acho que o hip-hop tem essa missão. O rap, do passado até hoje, fala sobre o que estamos sentindo e vendo; o que não era para estar acontecendo e está acontecendo. [A música] Negro Drama, dos Racionais MC’s, é um tapa na cara da sociedade, por exemplo. Então podemos ostentar no rap, falar que queremos ser ricos, mas temos que lembrar do que passamos e o que queremos melhorar. O rap é um estudo: tem letra que fala para a criança não se drogar, aí ela escuta e não faz isso, respeita o pai e a mãe, e entende as coisas que acontecem no mundo.

E+: O que te levou a cantar rap?

Participei de uma oficina de rap, [aos seis anos], no projeto Futuro do Hip-Hop, da DJ Vivian Marques, e lá entrei em contato com diferentes linhas do gênero: grafite, break, DJ e MC. Desses quatro, o que mais gostei foi a de MC. Então chegava nos palcos pedindo para cantar, achavam que eu ia soltar algo fofinho, mas eu mandava logo um rap.

E+: Você nasceu na região periférica da Raposo Tavares, na zona oeste de São Paulo. Qual a influência daquele lugar na sua vida?

Hoje moro na Santa Cecília [centro de São Paulo], mas já tomei meu antigo bairro como referência em duas músicas. A rua onde era meu prédio se chamava Peixe de Couro, unindo duas coisas que tem a ver comigo: meu signo é Peixes e gosto muito do tecido de couro, acho elegante. Daí veio a Money [O bairro que eu nasci era Peixe de Couro / Deu para perceber, eu nasci para ser do ouro / (…) / Eu posso ser muito rica, mas não vou pisar nos outros].

E tem também a Brincadeira de Menina, em que falo sobre as brincadeiras que eu participava lá. Tinha uma caixa d’água de cimento no meu prédio e eu subia, entre os sete e nove anos, para cantar como se eu estivesse no palco. Havia mato em volta e eu fingia que eram meus fãs.

E+: O que o público pode esperar do seu primeiro álbum, o Soffisticada?

Escrevi as letras para jovens. A minha música que mas fez sucesso foi Menina Pretinha, mas agora puxo para o que a juventude gosta de falar. E toda música vai ter um clipe com letras que levem mensagens. Eu espero que ajude bastante gente. Quero que as pessoas ouçam minhas rimas e mudem de vida, igual o Mano Brown faz. Serão dois traps, um rap e um funk em Soffisticada.

E+: De onde vem o nome Soffisticada?

Soffisticada é uma mistura das iniciais do meu nome com ‘sofisticada’, porque amo essa palavra e ela tem muito a ver comigo. Um dia, o Rico Dalasam, que é um cantor de rap bem conhecido, disse para eu fazer uma música com esse nome. Decidi então que seria o nome do disco. Inclusive, vai ter uma faixa nele que também se chama Soffisticada, e lançarei um clipe dela com muito ouro e prata das realezas negras.

E+: Você ficou entre as cem mulheres de maior destaque do mundo no ranking da BBC quando tinha 13 anos. Como é ser tão nova e já ser tão influente?

É ser quem eu já queria ser. Eu sempre quis fazer minhas músicas, ganhar fãs, ficar entre as mulheres que mais ajudam as pessoas. Tudo foi pensado. O que eu não tenho ainda é show lotado, mas já pensei em tudo quando tiver. Fico feliz que já conquistei muitas coisas e quero conquistar cada vez mais. Aliás, devo isso à minha família, pois todos os clipes são geridos por ela. Minha empresa é a minha família.

E+: Qual foi o momento mais marcante até hoje na sua trajetória profissional?

Quando eu fui chamada para abrir as Olimpíadas de 2016, [no Rio de Janeiro], porque eu amo muito esporte e nunca passou pela minha cabeça essa oportunidade. A sensação foi muito boa. Fiquei pensando: ‘Meu Deus, tem muita gente me assistindo, não posso errar’.

As rappers MC Soffia e Karol Conká durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.
As rappers MC Soffia e Karol Conká durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Foto: Reuters

E+: Suas músicas têm um teor educativo e, assim como o Facção Central, Racionais MC’s e outros grandes nomes do rap, elas trazem à tona um registro histórico e da atualidade brasileira.

Esse é meu objetivo, mas eu não me espelho só em homens. Sou mulher negra que canta rap e o público feminino me inspira muito, como Drik Barbosa, Flora Matos, Karol Conká, Ludmilla, Rihanna, Beyoncé e a [rapper americana] Lizzo. Tenho mais inspiração nelas do que em homens. Fora isso, sempre tento colocar o que estudo nas letras. Minhas músicas não são para eu falar qualquer coisa e virar chiclete. É para passar uma mensagem, quero falar de estudo.

E+: Você traz à tona questões históricas da África na sua arte e ainda está no primeiro ano do ensino médio. Você acha que a escola deixa a desejar no ensino sobre as sociedades africanas, seja na linha histórica, científica ou social?

É obrigação das escolas, porque tem uma lei de 2003 [nº 10.639] que exige que toda escola deve ensinar cultura africana e afro-brasileira. Hoje, existem professores que até dão aulas sobre o tema, mas só mostram que os negros eram escravos, pobres e as coisas ruins [que vieram após o colonialismo].

Deveriam falar também das riquezas, o que o povo negro fez na ciência, na literatura, etc. Tem coisas que o povo afro participou e ninguém sabe. A avenida Rebouças, [na capital de São Paulo], por exemplo, faz menção ao engenheiro negro [e abolicionista do século 19] André Rebouças. Tem também grandes escritores que a escola não fala e nós ficamos sem saber.

E+: Vamos supor que racistas e pessoas que acham que suas abordagens artísticas são ‘mimimi’  lessem essa matéria. O que você diria para elas?

Eu diria para estudar a cultura afro-brasileira para saber como nossa luta é necessária. Tem gente [negra] que precisa dessa ajuda para fugir do preconceito e conquistar a autoestima. É importante respeitar. O que estou fazendo é luta, e, se você não está, respeite. Muitas pessoas não vão aceitar isso que estou dizendo mesmo sendo necessário. Mas a luta continua.

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais