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Guss Lumumba Edwards, de 61 anos, ficou preso por assassinato durante quatro décadas e foi libertado há seis meses Foto: PETER HOCKADAY/PARKS CONSERVANCY

Alcatraz, conhecida como ‘a Rocha’, já foi uma das mais temidas prisões dos EUA. Separada do mundo livre e encravada numa ilha açoitada pelos ventos na Baía de São Francisco, hoje é um parque nacional visitado anualmente por 1,4 milhão de turistas que perambulam entre os sombrios blocos de celas e tiram selfies posando contra as barras. Até outubro, visitantes que se aventurarem a ir até um prédio abandonado no norte da ilha também vão encontrar gigantescas imagens de atuais e antigos prisioneiros. Não são rostos de malfeitores notórios como Birdman ou Al Capone. São rostos atuais de ocupantes de prisões californianas que buscam se libertar da infâmia na exposição Future IDs.

Recentemente, nessa incomum mostra de arte em espaço pedregoso, expositores posaram em frente a seus autorretratos, emoldurados como uma enorme cédula de identidade e mostrando o rosto que os autores imaginaram para si – Future IDs (“novas identidades”, em tradução imperfeita). Os autorretratos foram feitos para substituir antigas e incômodas encarnações dos prisioneiros.

Guss Lumumba Edwards, um homem de fala mansa, de 61 anos, desenhou seu ID com uma cauda de cometa dourada em volta da cabeça, puxada por um cometa com a forma do continente africano. Ao lado, ele apresentou seu material de trabalho – pincéis e latas de spray –, tendo ao fundo um horizonte de arranha-céus. Após cumprir pena de 40 anos por assassinato, Edwards foi libertado há seis meses da prisão de San Quentin. O quadro, diz ele, “me leva de volta às minhas origens” e também aponta para uma nova direção – a de “tentar interromper e sanar a violência na comunidade”.

No ID de Lily Gonzalez, ela joga uma rosa para os visitantes. “É para mostrar como mudou minha relação com o mundo”, diz a ex-detenta de 36 anos, que cumpriu pena de 2 anos e meio por crimes menores que prefere não comentar. Gonzalez vê o futuro não apenas em termos de emprego, mas “como um novo modo de ser, com flores, cores e redenção”. A rosa do quadro “é um agradecimento a Tupac por seu poema sobre rosas brotando do concreto”.

A mostra é resultado de um trabalho de cinco anos liderado por Gregory Sale, um artista do Arizona que se dedica às prisões dos EUA. Sale atua no crescente campo de uma “arte como prática social”, no qual artistas colaboram com cidadãos comuns na busca de respostas estéticas para problemas. A meta de Sale é criar uma ponte entre a prisão e a vida no exterior. Trabalhando inicialmente com a Coalizão Antirreincidência, uma rede de apoio social de Los Angeles, Sale e parceiros aperfeiçoam a ideia de Future IDs em Alcatraz.

Quem sai da prisão enfrenta obstáculos assustadores, de dificuldades para conseguir emprego a isolamento e estigma. Fica evidente, segundo Sale, que a aceitação na sociedade é um problema cultural. “Então, a pergunta é como encontrar soluções para o problema”, diz ele. Com sua ajuda, mais de cem pessoas fizeram isso ilustrando as próprias transformações – e a determinação em aproveitar ao máximo uma segunda chance.

“Na arte não há ninguém dizendo a você o que pensar”, diz Kirn Kim. “Ela abre diferentes espaços de seu cérebro.” Ainda jovem, ele foi condenado por cumplicidade num assassinato e pegou 20 anos de cadeia. Dois anos após deixar a prisão, ele entrou para um grupo artístico enquanto “lutava duramente para conviver em uma cultura asiática-americana na qual se sentia envergonhado”. Decidir o que desenhar ajudou-o a ver que não tinha mais nada a esconder. Sua imagem em sua nova identidade mostra-o empunhando um microfone e falando num pátio cheio de prisioneiros – uma versão do organizador comunitário que ele se tornou agora, aos 43 anos.

Usar arte para reabilitar prisioneiros não é novidade. O que é novo é o modo como os responsáveis pela política pensam sobre a vida além das grades – e muita gente está ajudando a dar o salto. O sistema penal americano está num ponto decisivo. Através do país, começam a surgir reformas visando a interromper e reverter os efeitos do encarceramento em massa. Com novas e menos draconianas leis para concessão de liberdade condicional, mais pessoas são libertadas. A punição desproporcional a minorias étnicas é hoje amplamente reconhecida. A Califórnia está na vanguarda dessas reformas, depois que a Suprema Corte ordenou ao Estado que reduzisse a superlotação das prisões estaduais. Um quarto da população carcerária de prisões do Estado foi transferida para prisões municipais ou libertada sob fiança na última década.

Organizações artísticas estão respondendo bem a essas mudanças. Músicos da Orquestra Sinfônica das Ruas de São Francisco ajudam a musicar poesias de ex-condenados. Perto do Vale de São Fernando, o Centro Cultural Tia Chucha inclui ex-condenados em concursos de música e representações teatrais. Em Chicago, numa iniciativa chamada Changing Voices, jovens egressos do sistema judiciário estão levando suas experiências em música e teatro para estudantes, juízes e políticos.

Muitos desses projetos são financiados pelo Fundo de Arte para Justiça, uma iniciativa filantrópica que ilustra o poder da arte. Em 2016, Agnes Gund, colecionadora de arte de Nova York, ficou chocada ao assistir a 13th, um documentário de Ava DuVernay mostrando as ligações entre encarceramento em massa e racismo nos Estados Unidos. Gund vendeu uma de suas valiosas obras e investiu US$ 100 milhões no novo fundo. A organização, desde então, vem colaborando com levas de artistas e grupos de defesa da reforma da Justiça criminal. “É urgente que vejamos os encarcerados como as pessoas que realmente são – seres humanos, maridos, pais, mães e filhos”, diz Helena Huang, diretora de projetos do fundo. “No nível mais fundamental, a arte dá voz às pessoas.”

Pessoas que pagaram sua dívida com a sociedade não são as únicas a usar a arte como transformação. Alcatraz também está reconsiderando sua missão. A ex-prisão é hoje parte de uma coalizão internacional de “centros de conscientização”, que inclui o Memorial dos Processos de Nuremberg e utiliza memórias difíceis para a humanidade como fonte inspiradora de ação. Exposições de arte – como Future Ids e uma mostra de Ai Weiwei de 2014 focada na experiência prisional do próprio artista chinês – ajudaram a transformar a sombria Alcatraz num lugar de estupefação e reflexão.

“Temos um sistema prisional gigantesco, o maior do mundo, e estamos em posição única para falar de encarceramento”, diz Emily Levine, ranger (guia, zeladora) em Alcatraz. A prática de se fazer perguntas incômodas espalhou-se pela Rocha. Recentemente, visitantes desambarcando do ferryboat se confrontaram com mensagens inusuais dos rangers. Numa lousa digital, perguntava-se: “2,3 milhões de adultos estão hoje encarcerados. O que você sabe sobre a prisão, cadeia ou centro de detenção de imigrantes mais próximo de sua casa?” Em outra, a pergunta era mais simples: “Prisões fazem você se sentir mais seguro?” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

Redação, The Economist

31 de agosto de 2019 | 16h00