Tinder dos Livros: Estudante conecta pessoas negras a doadores de obras literárias

Ação começou em novembro de 2018 e a estimativa é de quase mil livros doados até hoje; mulher dedica de três a quatro horas por dia para logística do projeto

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A gaúcha Winnie Bueno criadora do "Tinder dos Livros" Foto: Mariana Villareal / Imagem cedida por Winnie de Campos Bueno

Ela faz a conexão entre pessoas negras e doadores de obras literárias. Há pouco menos de um ano, a doutoranda em sociologia Winnie de Campos Bueno, de 31 anos, criou o ‘Tinder dos livros’. Um post de indignação feito por ela no Twitter fez com que aquela mesma conta na rede social se tornasse uma ferramenta de doação de livros.

“O ‘Tinder dos livros’ surgiu quase de forma autônoma. Foi resultado de uma indignação minha, muito própria das redes, um discurso antirracista que sempre aparece em novembro, mas que não se desdobra em ações práticas. Eu postei [no Twitter]: ‘seria muito mais útil às pessoas que se colocam como antirracistas darem um livro pra uma pessoa negra que precisa de um livro, mas que não tem dinheiro pra comprar, do que ficar se dizendo antirracista no Twitter'”, conta Winnie.

Após a publicação, muitas pessoas a procuraram com disponibilidade para doar os livros. A estudante passou a usar o Twitter como ferramenta de logística para o novo projeto, que funciona dentro da caixa de mensagens da rede social.

“A pessoa me manda [uma mensagem] no meu Twitter que tem condições de doar um livro, e quem quer receber me manda o título do livro que está precisando. Me manda o endereço completo, nome da rua, bairro, cidade, CPE e o nome. E aí eu ‘printo’ essa informação e mando para quem quer doar. A pessoa que vai doar compra o livro e manda entregar na casa da pessoa que pediu a obra”, explica a doutoranda.

A ação é voltada somente para a comunidade negra, de acordo com Winnie. “Livro é muito caro no Brasil, livro técnico, então, nem se fala. Se você considerar que a maioria da população negra do Brasil é pobre, e que a população pobre é negra, você poder criar algum tipo de mecanismo que diminua essas distâncias me parece útil. E tem sido útil, sobretudo pra quem é estudante”, afirma.

A relação de Winnie com os livros vem desde a infância. “Aprendi a ler muito cedo. Minha mãe me dava muitos livros. Na adolescência, o livro me salvou. Eu era a única menina negra na escola, quase toda. Eu estudei em escola particular no interior do Rio Grande do Sul e as minhas amizades eram feitas na biblioteca”, conta.

O ‘Tinder dos livros’ está alcançando uma estimativa de mil obras doadas. Os doadores são de todos os Estados do Brasil e também de fora. “Pra mim, é muito confortante, sobretudo neste momento em que a educação tem sido tão atacada. [Essa ação] tem ajudado tanto as pessoas que doam – elas se sentem de fato fazendo alguma coisa prática, alguma coisa útil, e pra quem recebe o livro também, que acaba tendo acesso a uma obra que não teria se não fosse pela doação”, diz Winnie.

A iniciativa, porém, não permite que livros usados sejam doados. Não é uma regra, mas não é uma ação voltada a doação de livros que estão guardados e que, por alguma razão, a pessoa queira doar. “É o livro que a pessoa precisa. Quem vai doar recebe um pedido específico de livro. Acontece de a pessoa ter o livro que a outra está pedindo, não tem problema. Mas a ideia é você, se não tiver esse livro, comprar e doar. A ideia é chegar livro novo, é que as pessoas consigam ter essa sensação do livro novo, que pra mim é uma sensação afetiva, importante. É uma sensação emancipadora pra mim, pegar o livro na mão, o livro novo, que tem cheiro de novo, que você vai poder marcar, que você vai poder estudar”, analisa a doutoranda.

‘Eu conecto pessoas através de livros’ é o nome da conta na rede social que já tem mais de 30 mil seguidores. O ‘Tinder dos livros’ teve algumas parcerias pontuais, com a editora Companhia das Letras, o cantor Emicida, a chef de cozinha Paola Carosella, entre outras, que fizeram a doação de obras e as deixaram à disposição de Winnie.

Em breve, deve haver novidades na ferramenta que a estudante usa para fazer a distribuição, em parceria com a rede social. “A gente está desenvolvendo junto com o Twitter um chatbot, que vai funcionar por dentro das minhas redes”, mas ela planeja ter uma própria plataforma para dar continuidade à ação e alcançar ainda mais pessoas. “A ideia é ter uma plataforma autônoma, que seja independente do Twitter, mas isso são planos no longo prazo. Eu organizo a logística do ‘Tinder dos livros’ sozinha, dedico de três a quatro horas por dia. A ideia é começar a automatizar o processo para que a gente consiga entregar mais livros.”

A estudante acredita que a iniciativa que ela teve possa estimular mais pessoas para ações práticas e que não se limitem ao ‘Tinder dos livros’. “Que se repliquem em bibliotecas comunitárias, em redes de trocas autônomas. Que a gente possa fazer da literatura, do livro também uma forma de afeto e resistência a esses tempos de tanto ódio e tanta restrições de direito”, completa.