A presença do negro em novelas na TV

Ao longo das décadas, representatividade e relevância aumentaram em produções para a televisão no Brasil; relembre produções que chamaram atenção pela questão

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Ruth de Souza e Zezé Motta em foto de 1984, ano em que interpretaram Jussara e Sônia, mãe e filha em 'Corpo a Corpo'. Foto: Globo / Divulgação

20 de novembro, Dia da Consciência Negra no Brasil, data associada à morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares (clique aqui para ler mais sobre sua história), o E+ relembra momentos marcantes ligados à presença de atores negros nas novelas da TV brasileira.

Ao longo dos anos, o mundo da televisão sofreu com questões ligadas ao preconceito racial. Na década de 1960, por exemplo, na 1ª novela que teria um personagem negro como protagonista, foi escolhido para viver o papel o ator Sérgio Cardoso, branco, fazendo uso da técnica hoje conhecida como blackface.

A Globo, principal produtora de novelas atualmente, por exemplo, só teve sua 1ª protagonista negra em uma novela com Taís Araújo, em Da Cor do Pecado, no ano de 2004. Anos depois, ela também seria pioneira em protagonizar uma novela em horário nobre, Amor à Vida. Taís será uma das protagonistas de Amor de Mãe, próxima novela das 9 da emissora.

Mais recentemente, a novela Segundo Sol, exibida em 2018, recebeu críticas e até uma notificação do Ministério Público do Trabalho por conta do baixo número de atores negros em seu elenco, fato que ocorria com frequência maior em décadas passadas.

A Cabana do Pai Tomás – blackface de Sergio Cardoso (1969)

Na década de 1960, A Cabana do Pai Tomás, novela que foi ao ar na Globo entre 9 de julho de 1969 e 28 de fevereiro de 1970, concorrendo no horário de Nino, o Italianinho, da TV Tupi, trazia um protagonista fazendo uso da técnica chamada blackface.

O ator branco Sérgio Cardoso pintado para se parecer com um homem negro na novela 'A Cabana do Pai Tomás', lançada em 1969. Por vezes, à época, até mesmo o papel de um personagem negro não era destinado a um ator negro se ocupasse condição de protagonismo na trama. 
O ator branco Sérgio Cardoso pintado para se parecer com um homem negro na novela ‘A Cabana do Pai Tomás’, lançada em 1969. Por vezes, à época, até mesmo o papel de um personagem negro não era destinado a um ator negro se ocupasse condição de protagonismo na trama.  Foto: Arquivo / Estadão

Baseado no romance Uncle Tom’s Cabin, lançado em 1852 pela norte-americana Harriet Beecher Stowe, a trama trazia uma história sobre o período da escravidão nos Estados Unidos e contava com nomes como Jacyra Silva, Haroldo de Oliveira, Isaura Bruno, Milton Gonçalves e Ruth de Souza.

Sérgio Cardoso foi escolhido pela agência de publicidade Colgate-Palmolive para dar vida ao escravo Tomás.

O ator, que era branco, pintava o corpo e o rosto de preto, usava perucas e chegava até mesmo a pôr rolhas no nariz. Ao longo dos capítulos, ele contracenava com Ruth de Souza, atriz que morreu em julho de 2019, aos 98 anos de idade.

Sérgio Cardoso em propaganda da novela 'A Cabana do Pai Tomás', em 1969. 
Sérgio Cardoso em propaganda da novela ‘A Cabana do Pai Tomás’, em 1969.  Foto: Acervo / Estadão

Na ocasião, o polêmico escritor Plínio Marcos, que não concordava com a escalação de um ator branco para viver um personagem negro, liderou manifestações críticas em repúdio à decisão na coluna que tinha à época no jornal Última Hora.

Além de Tomás, Sérgio Cardoso fazia ainda mais dois papéis: o presidente Abraham Lincoln e Dimitrius, um galã muito semelhante a Rhett Buttler, personagem de Clark Gable em E O Vento Levou.

A produção de A Cabana do Pai Tomás ainda sofreu por conta de um incêndio que atingiu a Globo em São Paulo, obrigando os trabalhos a terem continuidade no Rio de Janeiro. De autoria de Hedy Maia, a reta final ficou a cargo de Walter Negrão, que puxou a história para um lado de ‘faroeste’.

O médico negro de Milton Gonçalves em Pecado Capital (1975)

Milton Gonçalves em cena como Dr. Percival na novela 'Pecado Capital' (1975). 
Milton Gonçalves em cena como Dr. Percival na novela ‘Pecado Capital’ (1975).  Foto: Reprodução de ‘Pecado Capital’ (1975) / TV Globo

A 1ª versão de Pecado Capital, que foi ao ar entre 24 de novembro de 1975 e 4 de junho de 1976, trouxe Milton Gonçalves interpretando o psiquiatra Dr. Percival em horário nobre.

Até então, era comum que artistas negros ficassem restritos a funções como empregados ou motoristas em novelas, ou como escravos. E mesmo assim, ainda haviam casos como o da novela Escrava Isaura, de 1976, em que apesar de a protagonista ser uma escrava, a personagem era interpretada pela atriz branca Lucélia Santos.

Percival já havia feito diversos cursos na Europa, onde participava de congressos anuais como representante brasileiro. Como médico, o personagem era respeitado pelos demais na trama. O personagem em boa condição social havia sido um pedido do próprio ator para Janete Clair, autora da novela.

Milton Gonçalves em cena de 'Pecado Capital' como o psiquiatra Percival, ao lado de Vilma (Débora Duarte), filha caçula de Salviano (Lima Duarte), sua paciente que apresentava sintomas de esquizofrenia. 
Milton Gonçalves em cena de ‘Pecado Capital’ como o psiquiatra Percival, ao lado de Vilma (Débora Duarte), filha caçula de Salviano (Lima Duarte), sua paciente que apresentava sintomas de esquizofrenia.  Foto: Reprodução de ‘Pecado Capital’ (1975) / TV Globo

“Houve um tempo em que eu dizia pra mim: ‘tenho que fazer um personagem de gravata que seja bem-educado, fale bom português e seja bem relacionado. Fui a Janete Clair e pedi a ela”, contou Milton Gonçalves em entrevista ao documentário A Negação do Brasil (2000).

Posteriormente, a quantidade de personagens negros em posições profissionais de maior prestígio foi aumentando, principalmente nos anos 2000 e 2010.

Cris Vianna como a delegada Tita Bicalho em 'Tempos Modernos' (2010).
Cris Vianna como a delegada Tita Bicalho em ‘Tempos Modernos’ (2010). Foto: Márcio de Souza / Globo / Divulgação

É possível citar, por exemplo, a médica Luciana (Camila Pitanga) em Mulheres Apaixonadas (2003), o jornalista Bruno (Sérgio Menezes) em Celebridade (2003), o gerente Abílio (Ronnie Marruda) em Alma Gêmea (2005), o empresário Barão (Ailton Graça) em Sete Pecados (2007), a delegada Tita Bicalho (Cris Viana) em Tempos Modenos (2010) e o deputado Romildo Rosa, vivido pelo próprio Milton Gonçalves em A Favorita (2008).

Corpo a Corpo e o casal inter-racial

Corpo a Corpo foi ao ar entre 26 de novembro de 1984 e 21 de junho de 1985 – período que marcou a transição do governo Figueiredo para o de José Sarney.

A novela das 8 abordava a temática racial por meio do casal formado pelos personagens Sônia, interpretada por Zezé Motta, e Cláudio, vivido por Marcos Paulo.

Sônia (Zezé Motta) e Cláudio (Marcos Paulo) em gravação de 'Corpo a Corpo' (1985)
Sônia (Zezé Motta) e Cláudio (Marcos Paulo) em gravação de ‘Corpo a Corpo’ (1985) Foto: CEDOC / TV Globo

Na trama, a atriz dava vida a uma arquiteta que tinha uma firma de paisagismo e ganhava a vida projetando jardins. Em determinado momento, surgia um romance entre ela e Cláudio.

O relacionamento não era aceito por Alfredo (Hugo Carvana), pai de Cláudio. O preconceito racial leva Sônia a terminar o relacionamento com Cláudio, mesmo que ainda o amasse.

Alfredo, porém, cai de um cavalo e sofre uma fratura exposta na tíbia em certa altura de Corpo a Corpo. Para sobreviver, ele precisa de uma transfusão com o sangue O-, e a única pessoa compatível no momento era a própria Sônia.

Desta forma, o personagem racista acabava tendo sua vida salva pelo sangue de uma das vítimas de seu preconceito.

Outros casais interraciais já haviam sido retratados em novelas, como o formado pela empregada doméstica Maria Clara (Jacyra Silva) e o bombeiro Honório Severino (Marcos Plonka) em  Antonio Maria, de 1968.

“Eu amo a Maria Clara. O que importa que ela seja ‘de cor’, se a alma dela é branca e pura?”, afirmava o personagem após o casamento.

Maria Clara (Jacyra Silva) e o bombeiro Honório Severino (Marcos Plonka) em Antonio Maria, de 1968.
Maria Clara (Jacyra Silva) e o bombeiro Honório Severino (Marcos Plonka) em Antonio Maria, de 1968. Foto: Reprodução de ‘Antonio Maria’ (1968) / TV Tupi

Outras cenas mostrando comportamentos racistas foram ao ar na novela. Em determinado capítulo, a personagem de Zezé Motta é repreendida por Lúcia (Joana Fomm) ao fazer a entrega de um vaso de plantas em uma casa.

“Acho melhor botar essa gente na cozinha ou na área de serviço. Se não, vão sujar tudo isso aí e a Cristina vai ficar chateada. O lugar dessa gente é na cozinha”, diz Lúcia.

Em entrevista ao Estado, anos depois, Zezé Motta relembrou a importância da personagem Sônia, vivida por ela em Corpo a Corpo.

“[Gilberto Braga] me escalou para um papel de destaque em Corpo a Corpo que foi a 1ª novela do horário nobre a ter uma preta com família, profissão, namorado. Causou o maior ‘tititi’ o romance da minha personagem com o Marcos Paulo”, ressaltava.

Pátria Minha – cena de racismo gerou represálias à Globo

Em cena de Pátria Minha, que foi ao ar entre 18 de julho de 1994 e 11 de março de 1995, o protagonista Raul (Tarcísio Meira) fez diversos comentários racistas durante cena em que acusa o jardineiro Kennedy (Alexandre Moreno) de roubá-lo.

O personagem o chama de “negro insolente” e faz comentários que trazem preconceito explícito: “você pensa que eu acredito em crioulo? Vocês, Kennedy, quando não sujam na entrada, sujam na saída”.

Kennedy (Alexandre Moreno) e Raul (Tarcísio Meira) em cena representando o racismo em 'Pátria Minha'.
Kennedy (Alexandre Moreno) e Raul (Tarcísio Meira) em cena representando o racismo em ‘Pátria Minha’. Foto: Reprodução de ‘Pátria Minha’ (1994) / Globo

Após negar que tenha cometido o crime e tentar argumentar, Kennedy chora. No fim da cena, e evoca uma traição de Teresa (Eva Wilma): “Não foi à toa que ela não aguentou e corneou o senhor. E já não foi sem tempo: ela devia ter corneado muito antes. Se houver Justiça nesse mundo, dr. Raul, a outra vai cornear também.”

Na sequência, Raul expulsa Kennedy, que sai chorando, de seu quarto: “Negro sem vergonha. Vai se arrepender do dia em que nasceu. Negro!”

Sobre os bastidores, Alexandre Moreno afirmou à época: “Fiz a cena com muita vontade de ser representante dessa denúncia. Ao mesmo tempo, pintou um certo constrangimento por estar ouvindo aquelas coisas.”

O ator também ressaltou a reação de seu colega durante a gravação: “O Tarcísio ficou desesperado, sofreu. A gente não parava de se abraçar”.

Repercussão da cena

Houve reação à novela, especialmente por conta da cena envolvendo Tarcísio Meira e Alexandre Moreno, por parte de grupos ligados ao movimento negro.

A advogada Vera Lucia Vassouras, de São Paulo, entrou com pedido de liminar (negado poucos dias depois) na 15ª Vara Cível da Capital pedindo a suspensão das cenas que contassem com “referências racistas”.

Segundo Vera, a novela atentaria “contra a honra e a imagem dos cidadãos negros no País”.

O Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo (USP) se manifestou, por meio do sociólogo Luiz Carlos dos Santos, um de seus coordenadores.

“Não adianta os autores da novela dizerem que queriam denunciar o racismo com aquela cena absurda, porque o negro da novela não está discutindo nada, está quieto, é vítima sem voz”, afirmou Santos.

Sueli Carneiro, então coordenadora executiva do Geledés, Instituto da Mulher Negra, também entrou com uma notificação judicial no Foro Cível contra a Globo por “veicular imagens arcaicas” dos negros.

Kennedy (Alexandre Moreno) e Raul (Tarcísio Meira) em cena representando o racismo em 'Pátria Minha'.
Kennedy (Alexandre Moreno) e Raul (Tarcísio Meira) em cena representando o racismo em ‘Pátria Minha’. Foto: Reprodução de ‘Pátria Minha’ (1994) / TV Globo

“As cenas representam efetivamente o cotidiano que os negros enfrentam. A controvérsia está na imagem dos personagens negros da novela, que são estereotipados”, afirmava.

Sueli Carneiro chegou a ter um texto publicado no Estado (clique aqui para ler a íntegra) à época. Confira um trecho abaixo:

“Essa atitude tão moderna da emissora e de seus autores de enfrentar o problema do racismo se apoia em imagens arcaicas e ultrapassadas dos negros, que até ao nível da historiografia oficial, estão sendo objeto de críticas e revisões. Impossível que os globais não o saibam.

O ator Alexandre Moreno ao lado do diretor Helvecio Ratton durante gravação de 'Quimera - Uma Onda no Ar', em 2001, em que viveu o personagem Jorge.
O ator Alexandre Moreno ao lado do diretor Helvecio Ratton durante gravação de ‘Quimera – Uma Onda no Ar’, em 2001, em que viveu o personagem Jorge. Foto: Estevam Avellar / Divulgação

 

Os personagens brancos da novela são ricos, pobres ou de classe média. Generosos, egoístas, progressistas, reacionários, ou seja, refletem a multiplicidade de situações e atitudes presentes na sociedade.

Diferentemente, os personagens negros estão congelados num único estereótipo: são humildes, indefesos e servis.”

Autores e atores defendem a cena

Gilberto Braga, autor de Pátria Minha, se disse “pasmo” com a reação negativa da cena e salientou que as acusações seriam precipitadas, por não esperarem o desenvolvimento da trama.

À época, afirmou que Rangel (Clementino Kelé), padrinho de Kennedy, confrontaria o racista Raul: “Essas cenas vão mostrar o confronto que os negros estão pedindo”.

Sobre as acusações de que em suas novelas os negros estariam sempre em condições sociais inferiores em relação aos brancos, Gilberto Braga respondia: “Essas críticas são injustas. Sou antirracista.”

O autor Gilberto Braga em foto de julho de 1994, à época em que era autor da novela 'Pátria Minha' 
O autor Gilberto Braga em foto de julho de 1994, à época em que era autor da novela ‘Pátria Minha’  Foto: Otávio Magalhães / Estadão

Sérgio Marques, co-autor de Pátria Minha, defendia a novela, alegando que a equipe de autores estava “absolutamente tranquila”.

“Uma coisa é protestar contra algo que se julga justo. Outra é querer determinar como se deve tratar um personagem numa história. Isso é um despropósito”, defendia.

O ator envolvido na cena como o personagem Kennedy, Alexandre Moreno, também opinava: “É a primeira vez que se discute racismo de uma forma verdadeira, não caricata. É preciso que as pessoas saibam que há muitos Raul Pellegrini [nome do personagem de Tarcísio Meira] por aí, e que tomem posição a respeito”.

“Fundamental na questão do racismo é encarar os preconceituosos de cabeça erguida, olhando dentro dos olhos para questionar a prepotência. […] Mas nada é sutil hoje em dia, e o choque é uma maneira de despertar as pessoas”, concluía.

Kennedy (Alexandre Moreno) e Raul (Tarcísio Meira) em cena representando o racismo em 'Pátria Minha'.
Kennedy (Alexandre Moreno) e Raul (Tarcísio Meira) em cena representando o racismo em ‘Pátria Minha’. Foto: Reprodução de ‘Pátria Minha’ (1994) / TV Globo

Outros atores se manifestaram sobre o fato em entrevista ao Estado (clique aqui para conferir).

Norton Nascimento também elogiou a abordagem: “Foi perfeito colocarem aquele texto na boca do Tarcísio, um gentleman e ótimo ator. Não entendo o que querem certos integrantes do movimento negro, mas acho importante que cada um se manifeste de acordo com sua consciência.”

Sobre as reações, Zezé Motta também opinava: “Entendo o motivo que levou pessoas do movimento negro à revolta. Também gostaria que o caminho do Kennedy fosse outro, mas sei que o que aconteceu com ele nada mais é do que o reflexo do que se passa no País.”

Zeni Pereira (Isaura), Clementino Kelé (Rangel) e Chica Xavier (Zilá), que estavam no elenco da novela, também saíram em defesa do autor.

Clementino Kelé em cena com Ivan Albuquerque e Felipe Camargo na novela 'Pátria Minha'.  
Clementino Kelé em cena com Ivan Albuquerque e Felipe Camargo na novela ‘Pátria Minha’.   Foto: Globo / Divulgação

“Gilberto está lavando a alma de muitos negros gloriosos. Eu sei o que é o racismo”, declarava Zeni.

Clementino, por sua vez, afirmava: “Gilberto foi audacioso. As pessoas querem esconder quando um branco é preconceituoso, como o Raul, porque se negam a acreditar que ainda exista gente assim. Mas existe.”

“O racismo na nossa sociedade é bem pior. Entre patrão e empregado, nem se fala. O que o autor está fazendo só nos ajuda, porque leva as pessoas a se questionarem”, afirmava Chica Xavier.

Blitz

Cena demonstra racismo em blitz na novela 'Pátria Minha' (1994). Na imagem, Cláudia Abreu (Alice), Alexandre Moreno (Kennedy) e Fabio Assunção (Rodrigo).
Cena demonstra racismo em blitz na novela ‘Pátria Minha’ (1994). Na imagem, Cláudia Abreu (Alice), Alexandre Moreno (Kennedy) e Fabio Assunção (Rodrigo). Foto: Reprodução de ‘Pátria Minha’ (1994) / TV Globo

Outra cena de Pátria Minha também abordou o racismo. Nela, três personagens são parados pela polícia. Kennedy é revistado, enquanto Alice (Cláudia Abreu) e Rodrigo (Fabio Assunção), que são brancos, não passam pelo mesmo tratamento.

“Eu te garanto que não vão parar a gente, não. Eu passo, por dia, no mínimo em uma blitz e nunca me pararam”, diz o personagem de Assunção. Kennedy responde: “É, mas eu sou preto, né, Rodrigo? Não é a mesma coisa branco e preto em uma blitz, não. Pode apostar que eles vão mandar parar a gente porque eu estou aqui dentro”.

Cena demonstra racismo em blitz na novela 'Pátria Minha' (1994). Na imagem, Cláudia Abreu (Alice), Alexandre Moreno (Kennedy) e Fabio Assunção (Rodrigo).
Cena demonstra racismo em blitz na novela ‘Pátria Minha’ (1994). Na imagem, Cláudia Abreu (Alice), Alexandre Moreno (Kennedy) e Fabio Assunção (Rodrigo). Foto: Reprodução de ‘Pátria Minha’ (1994) / TV Globo

Na sequência, um policial pede para que os três desçam do carro, mas revista apenas o personagem negro. Rodrigo e Alice questionam a abordagem, mas a autoridade pede que deixem o local.

Alice, revoltada, pensa em voltar para tirar satisfações, mas é demovida da ideia pelos amigos. “A gente vive em um País racista. Já está mudando, tanto é que virou crime”, diz o personagem de Fabio Assunção.

A Próxima Vítima – Família Noronha, racismo e homofobia

Dois dias após o fim de Pátria Minha, estreava A Próxima Vítima, novela das 8 de Silvio de Abreu que foi ao ar entre 13 de março de 1995 e 4 de novembro de 1995. Nela, algumas mudanças já puderam ser notadas.

A trama trouxe a família Noronha, de classe média, formada por Camila Pitanga (Patrícia), Antônio Pitanga (Cleber), Lui Mendes (Jefferson), Norton Nascimento (Sidney) e Zezé Motta (Fátima).

Desta vez, a família formada apenas por atores negros estava ligada diretamente a outro tema importante, a homossexualidade, que era abordado através de uma ligação com um personagem central da história.

André Gonçalves (Sandro Rossi) ao lado de Lui Mendes (Jefferson Noronha) durante gravação da novela 'A Próxima Vítima', em julho de 1995. 
André Gonçalves (Sandro Rossi) ao lado de Lui Mendes (Jefferson Noronha) durante gravação da novela ‘A Próxima Vítima’, em julho de 1995.  Foto: Luiz Morier / Estadão

Ao longo da trama, descobria-se que Jefferson tinha um relacionamento com Sandro (André Gonçalves), filho dos protagonistas Ana (Susana Vieira) e Marcelo (José Wilker).

Após a sexualidade de Jefferson ser assumida perante a família, seu irmão Sidney evita a palavra “gay”, mas afirma que trata-se de uma “deformação do comportamento” que “tem cura”.

Ao sugerir que o irmão busque um psicólogo, o discurso homofóbico continua: “O que você tá querendo com essa história, cara? Desmoralizar a nossa família? Ofender a memória do papai? Que todo mundo saia por aí te chamando de ‘neguinha da Aclimação’?”

Jefferson reage dando uma cotovelada no irmão: “Eu posso ser gay mas sou homem. Tenho brio e vergonha na cara e não admito que você me falte com o respeito!”

Relembre a cena abaixo:

O preconceito racial também era presente. Em determinada cena, Sérgio (José Steinberg), um “representante de condôminos vizinhos”, visita a família para sugerir que se mudem do apartamento onde vivem.

Seu discurso, porém, é baseado em argumentos racistas: “para evitar constrangimentos desnecessários brancos devem viver perto de brancos e negros devem viver perto de seus irmãos de cor”.

“O Senhor não tem o direito de entrar na nossa casa e falar na cara da gente esse discurso completamente sem nexo e cheio de preconceito! “O senhor sabe que existe uma lei contra discriminação racial? Sabe que posso dar uma queixa contra o senhor por causa disso?”, reage Jefferson.

Antonio Pitanga (Cleber) em cena da novela 'A Próxima Vítima' 
Antonio Pitanga (Cleber) em cena da novela ‘A Próxima Vítima’  Foto: Nelson Di Rago / Globo / Divulgação

“Porque eu estou querendo comprar o apartamento de uma família ‘de cor’?”, continua Sergio.

Cleber o interrompe: “Não se refira a nós como gente de cor. Nós temos uma raça, e essa raça chama-se raça negra. Temos muito orgulho do que somos!”

Em seguida, o personagem branco afirma que “a bisavó de sua esposa era descendente de negros”, e tenta amenizar: “Como é que eu, como qualquer outro brasileiro ‘da gema’ pode ser racista?”

“Este País foi feito com a luta e o sangue de vocês. O Brasil tem uma dívida enorme com os escravos”, prossegue, antes de ressaltar outros “feitos” da comunidade negra no mundo da música e dos esportes.

A família ressalta que “racismo é crime” e cita a lei Afonso Arinos, voltada ao preconceito racial.

Relembre a cena abaixo:

Protagonismo negro em novelas

A atriz Taís Araújo conseguiu feitos marcantes ao longo de sua carreira, como ter sido considerada a 1ª negra protagonista de uma novela do horário nobre da Globo, vivendo Helena em Amor à Vida.

A atriz Taís Araújo em foto de outubro de 2019. 
A atriz Taís Araújo em foto de outubro de 2019.  Foto: Silvana Garzaro / Estadão

Taís Araújo chegou a falar sobre o marco em entrevista ao E+ (clique aqui para ler a íntegra) no último mês de setembro, quando o fato completou uma década.

“Acho que a gente teve melhorias, sim. Na verdade, é uma coisa muito simples de você observar o panorama. É o crescimento da quantidade de atores negros nas novelas dez anos atrás e agora. O número aumentou consideravelmente”, avaliou Taís, em 2019.

A controversa visão do autor, Manoel Carlos, à época

Taís Araújo ao lado de seu marido, Lázaro Ramos, e o autor de novelas Manoel Carlos, durante lançamento de 'Viver a Vida' em 2009. 
Taís Araújo ao lado de seu marido, Lázaro Ramos, e o autor de novelas Manoel Carlos, durante lançamento de ‘Viver a Vida’ em 2009.  Foto: Marcos Arcoverde / Estadão

Ao Estado, em 13 de setembro de 2009, Manoel Carlos, o autor de Viver a Vida, falava sobre a personagem de Taís Araújo (clique aqui para ler a entrevista completa). Confira um trecho abaixo.

Estado: Pela primeira vez, a Helena é jovem e negra. Qual é a importância que você dá a essas duas informações?

Manoel Carlos: Só dou importância ao fato de ser jovem. É natural que todos pensem que o principal é que ela é negra, mas não é. Quando comecei a criar a trama, tive vontade de fazer uma Helena menos maternal, porque todas as minhas Helenas viviam em função dos filhos e da família.

[…]

Cheguei à Taís Araújo porque sempre quis fazer uma novela com ela. Por isso, não importa o fato de ela ser negra. O mais importante é que ela convença como top model, e a Taís, que tem uma beleza internacional, convence.

Estado: Então, a novela não levanta a bandeira dos direitos raciais? 

Manoel Carlos: Não, nada. Até pode surgir, porque tenho outros personagens negros. Mas definitivamente não é uma bandeira. E tem mais: os artistas escapam disso. Ninguém fala de um ator negro dando a raça em primeiro lugar. Denzel Washington? Excelente ator. Ninguém diz ‘um grande ator negro’. Queria uma profissão que estivesse acima de qualquer conotação racial. Agora, é evidente que, quando saiu a notícia de que a Taís seria a Helena, todo mundo associou: ‘vai ser a primeira Helena negra’. Não, será a primeira Helena jovem. Poderia ser japonesa, para mim não faria diferença.

Helena (Taís Araújo) e Bruno (Thiago Lacerda) em cena com as personagens Luciana (Alinne Moraes), Isabel (Adriana Birolli) e Mia (Paloma Bernardi) na novela 'Viver a Vida'. 
Helena (Taís Araújo) e Bruno (Thiago Lacerda) em cena com as personagens Luciana (Alinne Moraes), Isabel (Adriana Birolli) e Mia (Paloma Bernardi) na novela ‘Viver a Vida’.  Foto: João Miguel Júnior / Globo / Divulgação

Em 2019, questionada sobre o destaque maior de Manoel Carlos ao fato de Helena ser jovem, em vez de ao fato de ser negra, Taís Araújo comenta: “Eu entendo o Maneco. Esse desejo, na época, também era um desejo meu – olha que loucura. Puramente por falta de entendimento da sociedade em que a gente vivia e vive”.

“Minha ingenuidade era tão grande quanto ao Brasil, que, na época, eu achava que o Brasil era aquele cordial que foi vendido para a gente a vida inteira”, prossegue.

Na sequência, conclui: “Uma ingenuidade de que ‘não precisa tocar nesse assunto’. E não. Precisa-se sim, tocar nesse assunto, falar nesse assunto. A gente não pode deixar os assuntos serem ignorados enquanto tem coisas a se resolver.”

Outros protagonismos

Anos antes, ainda na década de 1990, Taís já havia se tornado a 1ª mulher negra a ser protagonista de uma novela, em Xica da Silva, exibida pela Manchete entre 17 de setembro de 1996 e 11 de agosto 1997.

A atriz Taís Araújo em foto de outubro de 2019. 
A atriz Taís Araújo em foto de outubro de 2019.  Foto: Silvana Garzaro / Estadão

O trabalho foi o segundo de sua carreira na TV (antes, havia atuado em Tocaia Grande, tendo 16 anos ao início das gravações): “Me conheceram quando eu não tinha nenhum pensamento amadurecido sobre nada. Mas, se você pegar entrevistas minhas na revista Raça enquanto eu fazia a Xica da Silva, você já vê um entendimento meu – claro, de uma menina de 17, 18 anos, mas que não estava de bobeira”.

Anos depois, em 2003, Taís Araújo tornou-se a 1ª mulher negra a protagonizar uma novela da Globo – na faixa das 7 – Da Cor do Pecado. Depois, a atriz voltou ao protagonismo em Cheias de Charme (2012), Geração Brasil (2014), na própria Viver a Vida (2009) e, agora, em Amor de Mãe, que estreia em 25 de novembro de 2019.

Taís Araújo (Ellen) ao lado do marido, Lázaro  Ramos (Foguinho), com quem contracenou em 'Cobras e Lagartos' (2006) 
Taís Araújo (Ellen) ao lado do marido, Lázaro  Ramos (Foguinho), com quem contracenou em ‘Cobras e Lagartos’ (2006)  Foto: Maria Elisa Franco / Globo / Divulgação

Outros atores viveram papéis importantes, como Lázaro Ramos em Cobras e Lagartos (2006) e Lado a Lado (2012) e Camila Pitanga em Cama de Gato (2009) e Velho Chico (2016).

Segundo Sol – Bahia com poucos negros

Segundo Sol, novela das 9 que foi exibida pela Globo entre 14 de maio e 9 de novembro de 2018 recebeu críticas desde antes de sua estreia por conta da baixa quantidade de atores negros no elenco.

Em 11 de maio, dias antes do início da novela, o Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro (MPT-RJ) chegou a enviar uma notificação com teor recomendatório com 14 exigências a serem cumpridas pela Globo nos dias seguintes.

Vladimir Brichta, Arlete Salles e José de Abreu em cena da novela 'Segundo Sol'. 
Vladimir Brichta, Arlete Salles e José de Abreu em cena da novela ‘Segundo Sol’.  Foto: Paulo Belote / Globo / Divulgação

Entre elas, alterar o roteiro para “assegurar a participação de atores e atrizes negros e negras” e promover “a representação étnico-racial da sociedade brasileira, especialmente em cenários de população predominantemente negra.”

A recomendação era feita com base no baixo número de atores negros em Segundo Sol – especialmente entre o elenco principal da trama, que se passava em Salvador, onde, segundo o IBGE, cerca de 80% da população era negra.

À época, a Globo se posicionou por meio de nota afirmando que “respeita a diversidade e repudia qualquer tipo de preconceito e discriminação, inclusive o racial”.

Cena da prisão de Laureta (Adriana Esteves) em que é algemada por Agatha (Cintia Rosa) na novela ‘Segundo Sol’.  Foto: Paulo Belote / Globo / Divulgação

Cena da prisão de Laureta (Adriana Esteves) em que é algemada por Agatha (Cintia Rosa) na novela 'Segundo Sol'. 
Vladimir Brichta, Arlete Salles e José de Abreu em cena da novela ‘Segundo Sol’.  Foto: Paulo Belote / Globo / Divulgação

Outras novelas com histórias passadas na Bahia também são apontadas como tendo a mesma inconsistência, como Gabriela (1975), Terras do Sem Fim (1981) e Tieta (1989).