Foi a partir da experiência de ter sido uma criança negra em um ambiente escolar predominantemente branco e do conhecimento sobre culturas africanas e indígenas obtido na faculdade de História que a professora Priscila Dias decidiu adotar uma metodologia chamada “Círculos Narrativos” para enfrentar o racismo e reequilibrar as histórias orais e escritas no espaço escolar. 

“Na escola em que estudei aprendi que o silêncio frente ao racismo e às minhas tradições e costumes apagava a minha identidade e a minha pertença ao mundo. Eu estava na escola, mas culturalmente não fazia parte dela. Estar em um ambiente onde é preciso se adequar, se comportar conforme modos alheios, provar o próprio valor e ser polida o tempo todo é mutilação psíquica, moral, social e cultural. Daí nasceu uma raiva e uma dor que cresceu comigo e que só muito mais tarde pude entender”, conta.

No texto publicado no livro “Criatividade: Mudar a Educação, Transformar o Mundo”, Priscila também relata o conflito entre o mundo letrado, de conteúdo eurocêntrico, e seu universo particular, herdado da “cultura da voz, da palavra dita, dos relatos de vida e das lições ancestrais” dos pais nordestinos.

A virada na vida de Patrícia, aliás, se deu no terceiro ano do curso de História, quando teve contato com os conteúdos sobre as culturas africanas e indígenas, uma das obrigatoriedades impostas pela Lei 10.6039.

“Se a teoria me curou, foi sobretudo no contato com a proposta decolonial. Ao tirar a Europa do centro do mundo e considerar os processos históricos e valores civilizacionais para além do legado desse continente, ela me ofereceu também uma perspectiva reveladora do mundo escolar. Percebi, com Muniz Sodré, que “o colonialismo – ou, como alguns preferem, a ‘colonialidade’ – é ainda hoje a persistência desse primado do Um absoluto sobre o pluralismo cultural, em especial nas ideologias que confluem para as insistências educacionais por meio de textos canônicos”, lembra.

Sobre este aprendizado, Priscila vai além: “Com as ferramentas da teoria decolonial, compreendi que o discurso da escolarização ocidental, sob as vestes da modernidade, da civilização e do progresso, impulsionou uma educação centrada em princípios e práticas da razão colonial europeia. Essa monocultura do saber alicerça preconceitos contra povos indígenas e afroascendentes que seguem ainda hoje muito presentes no ensino no Brasil, no qual prepondera o desconhecimento de suas histórias e culturas”.

Da teoria à prática

Após a tomada de consciência, Priscila começou seu trabalho de reconstrução das narrativas escolares em uma escola estadual periférica “das mais problemáticas”, segundo ela. “Justamente por ser um espaço que concentra todas as mazelas do abandono da educação e por (des)atender a um público majoritariamente afroascendente e de famílias migrantes, aquela escola foi o ambiente ideal para realizar uma experiência crucial como educadora, pesquisadora e pessoa: os Círculos Narrativos”, explica.

De acordo com a professora, a metodologia objetiva equilibrar as narrativas orais e escritas no espaço escolar a partir de algumas estratégias, como transformar as aulas em espaços de diálogo livre para a troca de ideias e reflexões, onde todos possam falar e escutar relatos dos colegas.

“É um convite para que os estudantes, pensando criticamente sobre a escola, assumam o lugar de sujeitos críticos e coautores dos próprios processos de ensino-aprendizagem. Para tanto, tive, antes de mais nada, que romper por completo com a figura do professor que ameaça, reprime, silencia, coloniza corpos e espíritos, à qual aqueles alunos estavam habituados”, conta.

No livro, a professora chega a reproduzir algumas destas insatisfações, como a do jovem O., de 17 anos: “A escola é igual cadeia. Quando fui visitar meu irmão lá, pensei: ‘Caralho, é igualzinho. Tem grade, inspetor, diretor, hora do intervalo e você não pode entrar e sair a hora que quiser, é obrigado a estar lá’. Eu não acho que escola de rico seja assim”.

Além disso, a metodologia usada por Priscila também preza pela inclusão dos familiares na dinâmica da escuta, o que, segundo ela, reverbera as inquietações dos alunos. “As falas de uns e outros abrigam o desejo de que a escola fosse o contrário do que tem sido: um espaço de encontro, reconhecimento e troca verdadeiros, não de segregação e humilhação; um lugar de criação e expansão das pessoas, não um cenário de opressão e mutilação cultural”.

No entanto, a professora confessa que ainda enfrenta “resistência institucional” na implantação do método, mas sustenta a “necessidade de descentralizar o saber para além da cultura letrada, apontando caminhos para uma educação intercultural, em conteúdo e forma”.

“Por que a educação oferecida a quem mais precisa dela continua a ser, em grande parte, uma máquina de segregação e genocídio cultural? Minha experiência me garante que a educação pode, sim, ser um espaço de pertença, de afirmação e expansão de identidades, de libertação de corpos, mentes e espíritos”, questiona.

Sobre o livro

O relato completo da experiência da professora Priscila Dias pode ser lido no livro digital “Criatividade: Mudar a Educação, Transformar o Mundo”, organizado pelo programa Escolas Transformadoras, uma co-realização da Ashoka e do Instituto Alana. A obra, que foi escrita por estudantes, professores, gestores, pesquisadores e profissionais do setor social, pode ser baixada gratuitamente.